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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Pequenos tormentos da vida

http://www.portacurtas.com.br/filme_abre_pop.asp?cod=5099&exib=2636#

Mario Quintana

Quando Guri, eu tinha de me calar à mesa: só as pessoas grandes falavam…

“…agora, depois de adulto,
tenho de ficar calado
para as crianças falarem”

http://www.portacurtas.com.br/filme_abre_pop.asp?cod=5099&exib=2636#

Pequenos tormentos da vida: Trata-se de um documentário dirigido por Gustavo Spolidoro onde a sala de aula (uma turma da terceira série) é posta em cena, descortinando possibilidades didático-pedagógicas na educação da criança.

A primeira cena propriamente dita, é um passeio pelo que poderíamos chamar de uma “aula sem graça”, ou um dos pequenos tormentos da vida. Crianças bocejando e a narradora explorando as palavras e as imagens...

“Se ao menos um avião entrasse por uma janela e saísse pela outra”, diz a narradora, finalizando a cena inicial.
Trata-se de uma passagem do poema de Quintana:
De cada lado da sala de aula, pelas janelas altas, o azul convida os meninos, as nuvens desenrolam-se, lentas, como quem vai inventando preguiçosamente uma história sem fim…

Bocejos...

Sem fim é a aula:

e nada acontece, nada…

bocejos...

Se ao menos, pensa Lili, se ao menos um avião entrasse por uma janela e saísse pela outra!
Em seguida, entra a professora, revertendo a situação e dando outro rumo à aula, solicitando de cada criança que elas indicassem três tormentos em sua vida: pequenos, médios e grandes.
É essa nova direção à aula que me chamou a atenção, além, claro, do texto de Quintana. A professora atirou as crianças no universo do poeta, fazendo-as pensar na própria história de vida. Contextualizou a aula.
Daí em diante, vale a pena assistir e ver os tormentos relatados pelas crianças, bem como a forma como o diretor foi pontuando esta interação entre as descobertas que as crianças foram fazendo do mundo do poeta Maria Quintana, como também a forma como a professora conduz sua aula, envolvendo as crianças no estudo da obra do poeta.
Pequenos Tormentos da Vida é um documentário gaúcho que nos faz perceber que a poesia é uma das formas de incentivar a criança a ler.
É raro a criança que não gosta de poesia...
Mas, a realidade aqui é: ligue o seu computador e acesse o link do Portal Curtas abaixo para assistir.

Ficha Técnica
Produção Jaqueline Beltrame Fotografia Gustavo Spolidoro, Vicente Moreno Roteiro Gustavo Spolidoro Montagem Vicente Moreno Música Pata de Elefa

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professores apaixonados

Professores e professoras apaixonadas acordam cedo e dormem tarde, movidos pela idéia fixa de que podem mover o mundo.
Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas, debilitam as inteligências.
As professoras apaixonadas descobriram que há homens no magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar, que é a arte de dar contexto a todos os textos.
Não há pretextos que justifiquem, para os professores apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de romantismo barato.
Apaixonar-se sai caro! Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio comodista, dão carona para os alunos que moram mais longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria.
Se estão apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver sem paixão, ensinar sem paixão.
Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado, sonhando acordado com a aposentadoria, contando nos dedos os dias que faltam para as suas férias, catando no calendário os próximos feriados.
Os professores apaixonados muito bem sabem das dificuldades, do desrespeito, das injustiças, até mesmo dos horrores que há na profissão. Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e seu protesto é continuar amando apaixonadamente.
Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se dilui no café ralo, não foge pelo ralo, não se apaga como um traço de giz no quadro.
Ter fé impede que o medo esmague o amor, que as alienações antigas e novas substituam a lúcida esperança.
Dar aula não é contar piada, mas quem dá aula sem humor não está com nada, ensinar é uma forma de oração.
Não essa oração chacoalhar de palavras sem sentido, com voz melosa ou ríspida. Mera oração subordinada, e mais nada.
Os professores apaixonados querem tudo. Querem multiplicar o tempo, somar esforços, dividir os problemas para solucioná-los. Querem analisar a química da realidade. Querem traçar o mapa de inusitados tesouros.
Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de uma explicação, percebem o sorriso do aluno que entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar.
A paixão é inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.
* Gabriel Perissé é Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP e doutor em Filosofia da Educação e doutorando em Pedagogia pela USP; é autor dos livros "Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência); "O leitor criativo" (Omega Editora); "Palavra e origens" (Editora Mandruvá); "O professor do futuro (Thex Editora). É Fundador da ONG Projeto Literário Mosaico ; É editor da Revista Internacional Videtur -Letras (www.hottopos.com/vdletras3/index.htm); é professor universitário, coordenador-geral da ong literária Projeto Literário Mosaico: www.escoladeescritores.org.br)