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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Texto e interpretação: CORDEL ADOLESCENTE, Ó XENTE!


Cordel adolescente ó xente!
 Sou mocinha nordestina,
 meu nome é Doralice,
 tenho treze anos de idade,
 conto e reconto o que disse,
 pois me chamo Doralice,
 sou quem vende meu cordel
 nas feiras lindas do longe
 onde a poesia esconde
 nas sombras do meu chapéu!

 Eu falo tudo rimado
 no adoçado da palavra
 do Nordeste feiticeiro,
  no meu jeito brasileiro,
 aqui vim dizer e digo
 que escrevo muito livro
 que penduro num cordel,
 todo fato acontecido eu
coloco no papel!

 Vim pra feira, noutro dia,
 armei a minha poesia
 num cordel de horizonte.
 Quem passasse no defronte
 daquilo que eu vendia,
 parava e me escutava,
 pois sou mocinha falante,
 declamava o que escrevia!

 Contei de uma garota
 que me amava um cangaceiro,
 era um tal cabra da peste
 uma valentão do Nordeste
 que montava a ventania,
 trazia susto e coragem
 por cada canto que ia!
 Virge Maria!

 O nome da tal mocinha?
 não digo... é um segredo,
 escrevo o que não devo,
 invento, pois tenho medo
 de contar que a tal menina
 era... toda fantasia!

 Era moça que esconde
 a tristeza na alegria,
morava no perto-longe
 daquilo que nunca digo,
 o seu nome era antigo,
 era... talvez... Bertulina...

 Quem sabe da tal menina?
 Um dia de azul e noite,
 pernoite de cavalgada,
 na sombra, muito assustada,
Bertulina viu o moço que,
 ao longe, galopava.

 Ai, xente!
 Um luar se balançava
 num cordel adolescente!
 O vento corria tanto,
espanto: não alcançava
 a ligeireza perfeita
 que o galope desenhava!

 Era um cabra cangaceiro,
 curtido e sertanejo,
 tinha olhos de lonjuras,
 verduras de olhar miragens,
 chapéu de couro,
facão de abrir caminhos, viagens!

 Tinha estrelas faiscantes
 nos dentes do seu sorriso...
 Ai... Me calo... quase falo!...
 Ó xente... que perco o siso!

 Nos cascos do seu cavalo
 tinha trovão e faísca,
 tinha fogo, tinha brasa,
 fósforo que queima
e risca o escuro e ilumina
 a paixão em Bertulina!

 O moço chegou chegando,
 sorriu sua belezura,
 saltou fora do cavalo
(vontade ninguém segura),
 roubou o beijo da boca
 de Bertulina, a donzela.
 Depois de assaltar o beijo,
 perguntou o nome dela.
 — Eu me chamo Bertulina,
 moço, estou muito assustada,
 sou tão moça, inda menina
, nunca antes fui beijada...

 O senhor me assaltou,
não deu tempo pra mais nada...
 Eu não sei o que que eu faço,
 minha boca está molhada
 como o orvalho da flor...
 Será que seu beijo, ó moço,
 em mim pousou... namorou?
 Será que o gesto louco
 teve um pouco de amor?

 – Não sei se é fato, ou fita,
 não sei se é fita, ou fato,
 o fato é que você me fita,
me fita mesmo, de fato!
 – respondeu o cangaceiro
 em brincadeira e risada,
 pulou sobre o seu cavalo
 e partiu em galopada!

 A lua tremeu nos olhos
 De Bertulina, em lágrimas...

 A mocinha ficou louca
 de gosto de amor partido
 no alto do céu da boca!
Nem sabia que o amor
 podia ser cangaceiro,
 podia assanhar desejos
 roubando o beijo primeiro!

 Porque o primeiro beijo
é coisa muito esperada:
 tem que ser algo de manso,
 remanso, lagoa d’água...

 Tem que ter um certo tempo,
 coragem não revelada,
 um perfume de jasmim,
 um não s’esqueça de mim...

 Quando numa noite quente
 a lua ficou inchada,
 o cavaleiro voltou.
 Bertulina espiava de
 dentro de uma paixão.

 O moço viu Bertulina
e quis roubar outro beijo.
 Foi aí que a mocinha
 falou assim pro rapaz:
 Antes de querer meu beijo,
 por favor, moço,
me diga se o beijo é verdadeiro,
 ou se é ousadia,
 assalto de cangaceiro! [...]

 Eu me chamo Doralice
 Bertulina do sertão.
 Comigo só tem poesia
 se rimar no coração.

 Aprendi uma verdade
e verdade não se esquece:
 tudo aquilo que se aceita...
 pois é, a gente merece!

Sylvia Orthof. Cordel adolescente, ó xente! By herdeiros de Sylvia Orthof. São Paulo, Quinteto Editorial, 1996.

1. O cordel, uma narrativa em versos, é um tipo de texto elaborado para ser declamado ou cantado.
a) O texto que você leu se inicia com uma apresentação. Quem se apresenta ao leitor/ouvinte? Qual o seu nome e o que faz?
b) Qual é a estratégia empregada pela cordelista para atrair a atenção das pessoas para o seu cordel?
c) Qual é o tema do cordel?

2. Na 4ª estrofe, a narradora começa a contar a história da garota que amava um cangaceiro.
a) Que aspectos do cangaceiro são ressaltados nessa estrofe?
b) Que expressão tipicamente nordestina é usada para qualificar o cangaceiro?
c) Transcreva a expressão da linguagem oral empregada pela narradora. Que significado ela adquire no contexto?

3. Ao referir-se à mocinha da história, na 5ª e 6ª estrofes, a narradora não a identifica claramente. Por que ela utiliza esta estratégia?

4. A primeira vez que Bertulina viu o cangaceiro, algo aconteceu.
a) Que imagem representa o despertar do amor em Bertulina?
b) Que verso expressa a emoção incontida desse momento?
c) Que efeito de sentido é decorrente dessa escolha?

5. O cangaceiro é caracterizado na 9ª estrofe.
a) Que versos mostram o seu jeito de ser?
b) O que esse trecho revela sobre as características do cangaceiro?

6. A 11ª estrofe narra o momento em que explode a paixão de Bertulina.
a) Que substantivos empregados nessa estrofe podem ser associados às sensações vividas por Bertulina?
b) Que sentido os substantivos empregados nessa estrofe atribuem ao momento narrado e consequentemente ao sentimento de Betulina?

7. Na 13ª estrofe, Bertulina, após o beijo, afirma estar assustada.
a) Qual a preocupação dela em relação ao beijo?
b) Na fala de Bertulina, o que as reticências podem revelar?

8. Doralice e Bertulina são a mesma pessoa.
a) Que pistas, no texto, podem levá-lo a concluir isso?
b) Com que objetivo a narradora pode ter usado essa estratégia na sua história.

Sugestões: Assistiam aos filmes:
“Um lugar chamado Nottig Hill” ou “Lisbela e o prisioneiro”
São filmes que retratam amores impossíveis.

*obs.: Não posso enviar o gabarito...

23 comentários:

  1. OI, boa noite, adorei a atividade, pode me passar o gabarito??
    GRata, Aline .

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  2. Nossa minha professora passou esse Cordel hoje

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    Respostas
    1. eu tembem já vi esse cordel e muito bom

      Excluir
  3. Minha professora passou...

    ResponderExcluir
  4. OlÁ... AMEI A ATIVIDADE..´PODE ME ENVIAR O GABARITO?

    ResponderExcluir
  5. Olá.... Eu adorei essa atividade...
    Parabéns....
    Gostaria de receber o gabarito....
    Como faço para receber....
    cristianelm.adv@gmail.com
    Obrigada

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  6. gostaria de receber texto em forma de poema com gabarito
    agradeço.

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  7. Olá, gostaria de receber o gabarito.
    opregadorjh@yahoo.com.br

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  8. Gostaria de receber o gabarito, amei. cidinha.andrade78@gmail.com

    ResponderExcluir
  9. Olá passei essa atividade e gostaria do gabarito. Por gentileza, poderia me passar no email giselleb9@outlook.com.
    Cordialmente, professora Giselle.

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  10. Por gentileza, gostaria do gabarito pois apliquei essa atividade. Email giselleb9@outlook.com
    Cordialmente

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  11. tb gostaria de receber o gabarito marta.gina@hotmail.com

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  12. Também gostaria de receber o gabarito! proffletras@gmail.com

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  13. Por favor envie-me o gabarito carolgeppes@hotmail.com. Muito obrigada!!

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  14. Gostaria de receber o gabarito alineteix@hotmail.com

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  15. Gostaria de receber o gabarito alineteix@hotmail.com

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  16. Olá, adorei a atividade como faço para receber o gabarito ?
    ritamedeiros150477@hotmail.com

    ResponderExcluir
  17. Gostaria de receber o gabarito, gostei muito da atividade. ritamedeiros150477@hotmail.com

    ResponderExcluir
  18. Por gentileza, poderia me passar o gabarito no email patriciaconsultoramk1@hotmail.com.
    Cordialmente, professora Patrícia.

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  19. Tbem gostaria de receber o gabarito, por favor. lc.jess@hotmail.com

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  20. Olá! Gostaria de receber o gabarito.
    email: saramirtes@hotmail.com

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  21. Adora essa escritora, amei suas atividades com o texto. Por gentileza me envie o gabarito: sandraelenafmd@gmail.com. Obrigada!!!!!!!!

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professores apaixonados

Professores e professoras apaixonadas acordam cedo e dormem tarde, movidos pela idéia fixa de que podem mover o mundo.
Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas, debilitam as inteligências.
As professoras apaixonadas descobriram que há homens no magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar, que é a arte de dar contexto a todos os textos.
Não há pretextos que justifiquem, para os professores apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de romantismo barato.
Apaixonar-se sai caro! Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio comodista, dão carona para os alunos que moram mais longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria.
Se estão apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver sem paixão, ensinar sem paixão.
Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado, sonhando acordado com a aposentadoria, contando nos dedos os dias que faltam para as suas férias, catando no calendário os próximos feriados.
Os professores apaixonados muito bem sabem das dificuldades, do desrespeito, das injustiças, até mesmo dos horrores que há na profissão. Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e seu protesto é continuar amando apaixonadamente.
Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se dilui no café ralo, não foge pelo ralo, não se apaga como um traço de giz no quadro.
Ter fé impede que o medo esmague o amor, que as alienações antigas e novas substituam a lúcida esperança.
Dar aula não é contar piada, mas quem dá aula sem humor não está com nada, ensinar é uma forma de oração.
Não essa oração chacoalhar de palavras sem sentido, com voz melosa ou ríspida. Mera oração subordinada, e mais nada.
Os professores apaixonados querem tudo. Querem multiplicar o tempo, somar esforços, dividir os problemas para solucioná-los. Querem analisar a química da realidade. Querem traçar o mapa de inusitados tesouros.
Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de uma explicação, percebem o sorriso do aluno que entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar.
A paixão é inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.
* Gabriel Perissé é Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP e doutor em Filosofia da Educação e doutorando em Pedagogia pela USP; é autor dos livros "Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência); "O leitor criativo" (Omega Editora); "Palavra e origens" (Editora Mandruvá); "O professor do futuro (Thex Editora). É Fundador da ONG Projeto Literário Mosaico ; É editor da Revista Internacional Videtur -Letras (www.hottopos.com/vdletras3/index.htm); é professor universitário, coordenador-geral da ong literária Projeto Literário Mosaico: www.escoladeescritores.org.br)