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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Texto e interpretação: Blusão da moda

1 Há cores por todos os lados e um clima de muita generosidade na vitrina, os preços das ofertas fazem graciosos malabarismos.
2 Vejo um blusão de lã e me agrado dele. Sim, a cor me cai no gosto, o talhe não é dos piores, o preço está convidativo.Para quem precisa de um blusão de lã e sabe que ainda tem um pouco de inverno pela frente, é de aproveitar.
3 Entro. Quem me atende é o próprio dono da loja, um cidadão que já vi, creio eu, em mais de uma história d'As mil e uma noites.Um cidadão cortês,prestativo,interessadíssimo no minha humilde pessoa.Digo-lhe que gostei do blusão assim e assim que está na vitrina e ele vai, olha qual é, vem, procura na prateleira um semelhante, não encontra.O que justamente está de amostra é o último.
4 Fico torcendo para que o número seja o meu, 46.Faz tempo que ando procurando um blusão daquele tipo, daquela cor, daquele preço.Decepção é 50.Quando vou dizer "que pena, é muito grande", o homem já está me tirando o casaco e me vestindo o blusão.Digo não ainda, é enorme, mas ele não me dá ouvidos.
5 -Viu?Olha aí!
6 Estou olhando, é monstruoso.Sobra pano nos ombros, nas mangas, nas costas, por todo lado.Eu me sinto numa casamata.Mas o persistente comerciante tem a coragem muito síria de dizer que aquilo está bom.
7 -Está bom demais: é blusão pra mim e meus quatro filhos ... - digo,com um risinho.
8 Ele não quer saber de piadas.Manda que eu aproveite a oportunidade, pois um blusão daqueles, na verdade, anda custando o dobro.Não me escuta,prefere me ensinar que hoje um blusão decente se usa assim mais folgado, é da moda.Como todo respeito, só um palhaçinho de circo usaria um mais justo.Depois, a tendência da lã é sempre escolher um pouco.
9 Resisto, digo que vou pensar.Consigo, as duras penas, sair.
10 Entro noutra loja, olho, olho, não tenho sorte.Entro em mais outra, olho, olho, nada parecido com o blusão do meu gosto.Tento uma terceira, a mesma coisa.Desisto.
11 Volto ao blusão que já seria meu se fosse 46.Vou pensando:não ficou tão grande, ficou?Não entendo nada de moda, mas parece que já ouvi mesmo minha mulher dizer que roupa agora se usa um pouco mais solta.Será que não ando um pouco antiquado?
12 Chego e verifico que o blusão está sendo visto por um freguês e sinto me como que passado para trás.É um blusão bonito mesmo,o danado.O novo pretendente é um animal de grande, deve vestir 54, e ouço-o dizer "que pena, é muito pequeno", mas o turco não lhe dá ouvidos, diz que hoje um blusão decente se usa assim mais justo, senão o cara,com todo repeito, fica parecendo um palhaçinho de circo.Depois, a tendência da lã é sempre a de esticar claro.
13 Saio resignadamente sem blusão, vou embora ler um pouco das minh'As mil e uma noites.

a) A quem o narrador-personagem se dirige ao entrar na loja?
b) O que acontece quando o narrador pede para ver o blusão?

2. No terceiro parágrafo, o narrador-personagem descreve o dono da loja e a si mesmo.
a) Especifique os adjetivos que se referem:
Ao dono da loja;
Ao narrador-personagem;
b) O que o narrador evidencia com essa maneira de construir a descrição?

3. O narrador-personagem, no quarto parágrafo, torce para que o blusão, de que tanto gostou, caiba nele...
a) Que ação do dono da loja surpreende o narrador?
b) Por que, nesse parágrafo, foram empregadas aspas em “que pena, é muito grande”?

4. A crônica pode explorar a crítica, o humor, a ironia.
a) Copie a(s) frase(s) que, de acordo com o texto, apresenta(m) um tom irônico.
“Vejo um blusão de lã e me agrado dele.”
“Fico torcendo para que o número seja o meu [...].”
“Um cidadão cortês, prestativo, interessantíssimo na minha humilde pessoa.”
“_ Está bom demais: é blusão pra mim e meus quatro filhos...”
b) Explique o que dá o tom de ironia às frases escolhidas por você.

5. O narrador-personagem emprega diferentes termos para referir-se ao dono da loja.
a) Faça uma lista desses termos na ordem em que eles aparecem na crônica.
b) Com base nesses termos, o que fica subentendido sobre o que o narrador-personagem sente em relação ao dono da loja?

6. Releia o trecho do terceiro parágrafo, que descreve como age o comerciante ao saber do interesse do narrador pelo blusão exposto na vitrine.
a) Como age o comerciante nesse momento?
b) Que recursos lingüísticos empregados nesse trecho ajudam o leitor a construir a imagem descrita?

7. Com base no desfecho da crônica, responda: O que é possível concluir sobre o comportamento do vendedor, personagem do texto, em relação ao consumidor?

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professores apaixonados

Professores e professoras apaixonadas acordam cedo e dormem tarde, movidos pela idéia fixa de que podem mover o mundo.
Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas, debilitam as inteligências.
As professoras apaixonadas descobriram que há homens no magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar, que é a arte de dar contexto a todos os textos.
Não há pretextos que justifiquem, para os professores apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de romantismo barato.
Apaixonar-se sai caro! Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio comodista, dão carona para os alunos que moram mais longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria.
Se estão apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver sem paixão, ensinar sem paixão.
Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado, sonhando acordado com a aposentadoria, contando nos dedos os dias que faltam para as suas férias, catando no calendário os próximos feriados.
Os professores apaixonados muito bem sabem das dificuldades, do desrespeito, das injustiças, até mesmo dos horrores que há na profissão. Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e seu protesto é continuar amando apaixonadamente.
Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se dilui no café ralo, não foge pelo ralo, não se apaga como um traço de giz no quadro.
Ter fé impede que o medo esmague o amor, que as alienações antigas e novas substituam a lúcida esperança.
Dar aula não é contar piada, mas quem dá aula sem humor não está com nada, ensinar é uma forma de oração.
Não essa oração chacoalhar de palavras sem sentido, com voz melosa ou ríspida. Mera oração subordinada, e mais nada.
Os professores apaixonados querem tudo. Querem multiplicar o tempo, somar esforços, dividir os problemas para solucioná-los. Querem analisar a química da realidade. Querem traçar o mapa de inusitados tesouros.
Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de uma explicação, percebem o sorriso do aluno que entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar.
A paixão é inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.
* Gabriel Perissé é Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP e doutor em Filosofia da Educação e doutorando em Pedagogia pela USP; é autor dos livros "Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência); "O leitor criativo" (Omega Editora); "Palavra e origens" (Editora Mandruvá); "O professor do futuro (Thex Editora). É Fundador da ONG Projeto Literário Mosaico ; É editor da Revista Internacional Videtur -Letras (www.hottopos.com/vdletras3/index.htm); é professor universitário, coordenador-geral da ong literária Projeto Literário Mosaico: www.escoladeescritores.org.br)