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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Texto e interpretação: Megabytes de paixão

Se o disco rígido parar e o sistema der pau, ainda resta uma esperança

Por Max Gehringer
O Vandemilson -- mais conhecido na empresa como vand@ekonometrikon.com.br -- estava digitando mais um dos incontáveis e-mails que despachava todos
os dias quando, justo na hora de ele teclar o emoticon de fechamento (:-\, "tou meio em dúvida") -- pif! --, o sistema cai. E aí o Vandemilson
se põe a pressionar todas as combinações imagináveis de Ctrl e Alt, até se convencer de que, realmente, aquele era um problema de proporções cósmicas.
E fez então a única coisa que lhe restava fazer: ficou ali encarando a tela escura, com aquela mesma cara que um pingüim faria se, de repente, acordasse no meio do Deserto do Saara.
Dez minutos de vigília depois, como nada de prático acontecesse, o Vandemilson resolveu fazer algo inédito em sua rotina diária: levantar-se da cadeira. E, uma vez em pé, pôde constatar que o local onde trabalhava era enorme, repleto de baias iguais à sua, centenas delas, distribuídas
ao longo de cinco corredores que atravessavam todo o pavimento. Havia até quadros na parede, bebedouros, vasos... e, então, veio a grande surpresa: num estalo, o Vandemilson notou algo ali que ele nunca percebera antes: pessoas! Um bando de gente, em pé ou circulando lentamente, e todo mundo com uma expressão de espanto idêntica à dele. Foi então que ele ouviu um som, vindo da
baia vizinha:
-- Oi.
Levou alguns segundos até o Vandemilson racionalizar e decodificar exatamente o que era aquilo: uma voz! E, aparentemente, humana. Emitida
por uma loirinha que, o Vandemilson logo concluiu, estava se dirigindo a ele.
-- Tudo bem? Eu sou a Natália.
-- Natália... O Vandemilson se pôs a conjeturar como aquele nome ficaria numa fonte Matisse ITC, corpo 14, em itálico. E foi então que a Natália proferiu a frase mágica, que tocou profundamente o coração do Vandemilson:
-- A nat@ekonometrikon.com.br!
A Nat! O Vandemilson já havia mandado milhões de e-mails para ela, e recebido outros tantos, só que nunca imaginara que ela pudesse ter, assim, vamos dizer, cabelo, boca, braços... Mas ela tinha. E, aliás, era até bem configurada, com um design bastante atraente. E o Vandemilson imediatamente a visualizou numa tela, com uma placa de vídeo GeForce 4, sem distorções de imagem...
-- Você é o Vand, né? Adoro os seus forwards!
Naquele exato momento, o Vandemilson se deu conta de que a queda do sistema poderia não ter sido tão catastrófica assim. E, já meio deslumbrado, perguntou a Nat:
-- Isso aí no seu micro é um gravador de DVD?
-- É, então. RW, até 4.7 giga. Eu mesma instalei.
Aquela era, definitivamente, a mulher com que o Vandemilson sempre sonhara. Para ser perfeita, só faltava ela ser digital. Mas a versão analógica até que não era de se jogar fora, e o Vandemilson resolveu pular o setup e partir para o quick start. E arriscou uma questão íntima:
-- Quantos giga tem o seu HD?
-- 60. Mas vou aumentar para 120.
--E esse ícone ali no cantinho...
-- KaZaA, né? Nível "Supreme Being".
Um ser supremo! Foi uma paixão instantânea e avassaladora. O Vandemilson passou a imaginar como seria maravilhoso passar horas e horas, assim, plugado, com alguém como a Nat. Poderiam compartilhar softwares. Intercambiar arquivos. E um dia, quem sabe, só ele e ela, distantes do mundo, os dois online numa sala de chat. Não dava para perder uma oportunidade daquelas, e o Vandemilson sacou que, dali em diante, tudo seria uma mera questão de resolução:
-- Qual é a resolução de sua tela?
-- 1 024 por 768. Mas eu só curto AVI. E detesto compressão!
O Vandemilson também! E aí ele não conseguiu mais resistir:
-- Escuta, Nat, não quero parecer precipitado, mas... posso pegar no seu mouse?
Um mouse a laser sem fio, suave, que reagia ao mais leve toque dos dedos. E as caixas de som da Nat? Perfeitas e bem torneadas. O Vandemilson tremia só de pensar no hardware dela, com uma nova surpresa em cada slot. Mas... será que ela toparia uma interface?
-- Uma hora qualquer, se você quiser, eu poderia te mostrar meus links...
-- Ah, eu ia adorar!
E aí o Vandemilson sentiu aquela modulação típica de uma paixão ao primeiro clique. Seus olhos brilharam com intensidade (32 bits) e ele deu um longo suspiro -- em wav.
E começou então a pensar (um processo fisiológico de inputs e out puts que não requer o uso de equipamentos periféricos). Ele estava ali na empresa havia quanto tempo? Quase dois anos? E não conhecia ninguém. Nem o nome do seu gerente ele sabia (embora soubesse o que realmente interessava, a senha de acesso dele). Mas o que eram as pessoas que gravitavam a seu redor? Apenas letras e arrobas em seu catálogo de endereços eletrônicos.
Quanto ao resto do mundo, tudo ia e vinha via internet ou estava armazenado em arquivos de imagens digitalizadas. Seu universo inteirinho cabia numa tela de 17 polegadas. E o Vandemilson concluiu que só havia uma palavra capaz de definir tudo aquilo: "debugged". Ou, traduzindo, "felicidade".
Nessa equação de vida, a única variável nova era a Nat. Por ela, quem sabe, até valeria a pena dar um reboot e arriscar um relacionamento mais chegado. E foi nesse exato instante que o sistema entrou de novo no ar. Mas, antes que a Nat desaparecesse na baia, o Vandemilson se encheu de coragem e fez a proposta:
-- Então, fica assim?
-- Fica. A gente se tecla.
E até hoje os dois continuam conectados numa boa, a uma média de quatro send por hora. Quando querem se ver ao vivo, é simples: os dois ligam as webcams de seus micros. O fato de continuarem a poucos centímetros de distância um do outro não conta. Afinal, este é o século 21. O século digital, onde abraços se tornaram abs, beijos se transformaram em bjs e bom humor virou.
Mas o mais importante de tudo é que, se um dia a paixão for para a lixeira, tudo irá ser resolvido sem traumas nem lances emocionais. E em apenas
1 segundo: shut down? Ok.
- Max Gehringer, Revista Exame

questões:
1. Nesse texto, a narrativa se desenvolve a partir da queda do sistema de computadores num escritório.
a) Qual é o tema o texto?
b) Como as personagens se identificavam e se relacionavam até esse momento?

2. Ao levantar-se da cadeira, Vandemilson faz várias descobertas.
a) O que ele descobre sobre o seu local de trabalho?
b) O que a personagem sente ao encontrar pessoas trabalhando tão próximas?

3. O autor, ao conquistar o texto, utiliza um conjunto de palavras e expressões comuns a um determinado grupo
a) A que grupo de leitores esse texto é mais especialmente dirigido?
b) Analisando o veículo de publicação do texto, por que o autor escolheu esse tipo de linguagem para escrever a crônica?
c) O que a linguagem empregada no texto, com tantas palavras e termos ligados à informática, pretende expressar?
d) Observe as expressões de informática utilizadas no texto. Podem-se encontrar algumas no sentido figurado? Quais são elas e em que sentido estão empregadas?

4. Releia do 14º ao 18º parágrafo. Ao se dar conta de que Natália era, definitivamente, a mulher com quem sempre sonhara, Vandemilson arriscou uma questão íntima.
a) Na conversa estabelecida entre eles, percebe-se um jogo de sentidos: o sentido real e o figurado. Qual é o sentido real, denotativo dessa conversa?
b) E qual é o sentido figurado?
c) Após ouvir as respostas de Natália, como Vandemilson se sente?
d) Que termos são empregados para descrever o modo como Vandemilson vê Nat e o que ele sente?
e) Observe a construção das falas do diálogo. São frases curtas ou longas? O que elas determinam sobre a maneira de as pessoas se relacionarem?

5. Esse texto retrata a visão do cronista sobre um tema do cotidiano. Qual o ponto de vista do cronista sobre as relações interpessoais?

6. No último parágrafo, o cronista expõe o que pensa sobre o assunto desenvolvido na crônica.
a) Levando em conta o veículo de publicação do texto e o público-alvo, qual pode ter sido o objetivo dessa crônica?
b) Que sentidos podem ser atribuídos a esse parágrafo?

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professores apaixonados

Professores e professoras apaixonadas acordam cedo e dormem tarde, movidos pela idéia fixa de que podem mover o mundo.
Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas, debilitam as inteligências.
As professoras apaixonadas descobriram que há homens no magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar, que é a arte de dar contexto a todos os textos.
Não há pretextos que justifiquem, para os professores apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de romantismo barato.
Apaixonar-se sai caro! Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio comodista, dão carona para os alunos que moram mais longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria.
Se estão apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver sem paixão, ensinar sem paixão.
Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado, sonhando acordado com a aposentadoria, contando nos dedos os dias que faltam para as suas férias, catando no calendário os próximos feriados.
Os professores apaixonados muito bem sabem das dificuldades, do desrespeito, das injustiças, até mesmo dos horrores que há na profissão. Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e seu protesto é continuar amando apaixonadamente.
Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se dilui no café ralo, não foge pelo ralo, não se apaga como um traço de giz no quadro.
Ter fé impede que o medo esmague o amor, que as alienações antigas e novas substituam a lúcida esperança.
Dar aula não é contar piada, mas quem dá aula sem humor não está com nada, ensinar é uma forma de oração.
Não essa oração chacoalhar de palavras sem sentido, com voz melosa ou ríspida. Mera oração subordinada, e mais nada.
Os professores apaixonados querem tudo. Querem multiplicar o tempo, somar esforços, dividir os problemas para solucioná-los. Querem analisar a química da realidade. Querem traçar o mapa de inusitados tesouros.
Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de uma explicação, percebem o sorriso do aluno que entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar.
A paixão é inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.
* Gabriel Perissé é Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP e doutor em Filosofia da Educação e doutorando em Pedagogia pela USP; é autor dos livros "Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência); "O leitor criativo" (Omega Editora); "Palavra e origens" (Editora Mandruvá); "O professor do futuro (Thex Editora). É Fundador da ONG Projeto Literário Mosaico ; É editor da Revista Internacional Videtur -Letras (www.hottopos.com/vdletras3/index.htm); é professor universitário, coordenador-geral da ong literária Projeto Literário Mosaico: www.escoladeescritores.org.br)