Seguidores: é só clicar em seguir! Não precisa ter blog, só qualquer end. do Google.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Aprendendo a fazer uso da pontuação


Introdução 

Sabe-se que durante muitos anos se ensinou pontuação através de regras gramaticais apenas, de forma descontextualizada , tornando o assunto desinteressante e prescritivo-normativo. Cabe ao professor oferecer aos alunos a possibilidade de observar o valor da pontuação dentro de enunciados linguísticos, fazer comparações com outras formas de pontuar e avaliar os efeitos de significado que as diferentes maneiras podem conferir a estes mesmos enunciados.
Para isso é preciso trabalhar com pequenos textos de diversos gêneros, fazer a observação de sua pontuação e a finalidade a que ela se destina ali (poemas, notícias, recados, cartas, textos de panfletos, anúncios, de publicidade etc.).

Conteúdos específicos
- Conceito de pontuação aberta e pontuação fechada;
- Conhecimento e utilização da pontuação segundo regras;
- Reconhecimento da pontuação ou da falta de pontuação para se obter efeito estilístico;
- Reconhecimento e emprego das diferentes formas de pontuação em diálogos.

Anos 
7º a 9º

Tempo estimado 
4 aulas

Material necessário Textos escritos tendo como suporte fichas ou a tela do computador.
Obras literárias completas.
Poesias avulsas ou em antologias

Desenvolvimento
1ª etapa  Proponha a leitura do poema Ouvir estrelas, de Olavo Bilac.
Ouvir estrelas, de Olavo Bilac 
Ouvir estrelas
Ora, (direis) ouvir estrelas!
Certo perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto 

A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo! 

Que conversas com ela? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las! 

Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."
2ª etapa  Provoque uma discussão entre os alunos sobre a pontuação usada pelo poeta e seus efeitos nos versos; pergunte, por exemplo, que elementos do poema indicam que se trata de um diálogo; qual a diferença de ponto de vista entre o poeta e seu interlocutor.
Peça que expliquem qual a importância dos parênteses no primeiro verso.
O que sugere o uso das reticências no verso "E abro as janelas, pálido de espanto...? - Qual a condição indicada pelo poeta para se poder ouvir as estrelas e que sinal de pontuação nos sugere essa percepção ou sensação? Dessa forma, perceberão a importância da pontuação estilística, ou seja, utilizada para sugerir uma emoção, uma sensação, um sentimento.

3ª etapa  Trabalhe com outros textos literários nos quais se encontrem efeitos da pontuação estilística. Podem ser apresentados em fichas, ou lidos em antologias, ou pesquisados na Internet e selecionados pelos próprios alunos etc. (o capítulo Velho diálogo de Adão e Eva , em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis é um bom exemplo para isso). A ausência de pontuação, em grande parte dos poemas, também é um recurso estilístico, pois muitas vezes a própria disposição dos versos sugere pausas, expressividade.

4ª etapa  Trabalhe, em seguida com a turma, em grupos, propondo que realizem a próxima atividade visando a garantir que as mensagens se tornem claras e objetivas, através do uso da pontuação adequada.
Leia o texto
A herança
Um homem rico estando muito mal de saúde, pediu que lhe trouxessem papel e tinta.
Escreveu o seguinte:
Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do
padeiro nada dou aos pobres .
Deu o último suspiro antes de ter podido fazer a pontuação. A quem, afinal, deixava sua fortuna?
Eram apenas quatro os citados.
No dia seguinte, ao receberem o papel, cada um dos citados deu ao texto a pontuação e a interpretação que lhe favorecia.

Reescreva o texto pontuando da mesma forma que eles. 

O sobrinho fez a seguinte pontuação:
A irmã chegou em seguida e o pontuou assim:
O padeiro pediu cópia do original e o deixou dessa forma:
A notícia se espalhou pelas redondezas e um sabido homem representando os pobres deixou o texto desse jeito:
Após a realização da atividade, discuta com os alunos o uso das vírgulas, do ponto final, do ponto-e-vírgula e de outros sinais que tenham usado para concluir as mensagens.
Registre as conclusões a respeito do uso desses sinais de pontuação. Depois de fazer isso, as convenções sobre o uso da pontuação ganharão significado, posto que realizadas dentro de um contexto e em verdadeira situação de uso.

5ª etapa  Leia um texto em prosa (um artigo de jornal ou um parágrafo, relativamente extenso), sem fazer pontuação alguma. Peça que relatem o que entenderam do que foi lido por você. O entendimento, seguramente, estará prejudicado. Esse exercício oral visa a estimular a tomada de consciência dos alunos quanto à necessidade da utilização dos sinais de pontuação para compreensão dos enunciados. Em seguida, distribua o texto a eles para que façam a necessária pontuação. Depois é preciso que leiam em voz alta para comparar e sentir a diferença entre as duas formas de enunciação.

Pode ser feito o mesmo tipo de exercício com enunciados com interlocução para que pratiquem a pontuação do diálogo, em todas as suas variantes (com travessão no início das falas, depois das falas, sem travessão, entre outras).

6ª etapa  Use um trecho qualquer da obra Todos os Nomes, de José Saramago, (algum da página 61), onde se encontra uma pontuação completamente diferente da empregada como norma em português. É uma boa oportunidade para reflexão sobre a relação entre a prescrição da gramática normativa e a transgressão dessas regras para efeito estilístico, portanto, inovador.

7ª etapa  Aproveite para lhes ensinar o que é pontuação aberta e pontuação fechada.

Muitas vezes omite-se a pontuação, optando-se pela pontuação aberta. A utilização de recursos como disposição espacial dos elementos e das frases, a utilização das linhas, cores e marcadores, os espaços em branco etc., permitem identificar as partes do texto, sem necessidade de se pontuar, tornando, assim, o texto mais leve.

A pontuação aberta é adotada especialmente nos seguintes casos:
- nas manchetes e títulos da imprensa;
- em títulos de artigos, ensaios, redações;
- em partes de correspondências, especialmente comerciais datas, endereçamento, vocativo, assinatura;
- na listagem de itens e outras partes de textos publicitários;
- na listagem de itens em textos jornalísticos, técnicos.

8ª etapa  Nesse estágio, o professor poderá propor exercícios que sistematizem o emprego da pontuação. Deve utilizar textos completos (períodos, parágrafos e não frases isoladas). É preciso que as atividades tenham significado, estejam em um contexto para serem realizadas.
Uma boa estratégia é trabalhar com as próprias produções dos alunos, coletivamente, em situações de reescrita e não apenas de correção, para que percebam como realizar os mesmos textos com uma pontuação diferente da original.

Outra atividade interessante é pedir que os alunos ditem, uns para os outros, pequenas narrativas com diálogos (anedotas, conversas telefônicas, conversas de MSN) e as pontuem.. Depois devem discutir a pontuação usada, se normativa , se estilística etc.

Avaliação
A avaliação se dará coletivamente, em todos os momentos em que os alunos estiverem participando das discussões sobre pontuação e realizando exercícios, e individualmente, quando estiverem empregando a pontuação em produções escritas, de maneira prescritiva apenas ou de forma criativa para obter efeitos estilísticos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Loading...

professores apaixonados

Professores e professoras apaixonadas acordam cedo e dormem tarde, movidos pela idéia fixa de que podem mover o mundo.
Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas, debilitam as inteligências.
As professoras apaixonadas descobriram que há homens no magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar, que é a arte de dar contexto a todos os textos.
Não há pretextos que justifiquem, para os professores apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de romantismo barato.
Apaixonar-se sai caro! Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio comodista, dão carona para os alunos que moram mais longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria.
Se estão apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver sem paixão, ensinar sem paixão.
Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado, sonhando acordado com a aposentadoria, contando nos dedos os dias que faltam para as suas férias, catando no calendário os próximos feriados.
Os professores apaixonados muito bem sabem das dificuldades, do desrespeito, das injustiças, até mesmo dos horrores que há na profissão. Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e seu protesto é continuar amando apaixonadamente.
Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se dilui no café ralo, não foge pelo ralo, não se apaga como um traço de giz no quadro.
Ter fé impede que o medo esmague o amor, que as alienações antigas e novas substituam a lúcida esperança.
Dar aula não é contar piada, mas quem dá aula sem humor não está com nada, ensinar é uma forma de oração.
Não essa oração chacoalhar de palavras sem sentido, com voz melosa ou ríspida. Mera oração subordinada, e mais nada.
Os professores apaixonados querem tudo. Querem multiplicar o tempo, somar esforços, dividir os problemas para solucioná-los. Querem analisar a química da realidade. Querem traçar o mapa de inusitados tesouros.
Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de uma explicação, percebem o sorriso do aluno que entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar.
A paixão é inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.
* Gabriel Perissé é Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP e doutor em Filosofia da Educação e doutorando em Pedagogia pela USP; é autor dos livros "Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência); "O leitor criativo" (Omega Editora); "Palavra e origens" (Editora Mandruvá); "O professor do futuro (Thex Editora). É Fundador da ONG Projeto Literário Mosaico ; É editor da Revista Internacional Videtur -Letras (www.hottopos.com/vdletras3/index.htm); é professor universitário, coordenador-geral da ong literária Projeto Literário Mosaico: www.escoladeescritores.org.br)