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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Artes+ Uma exposição de releituras feitas pela turma


Os alunos da EM Professora Leocádia, no Rio de Janeiro, conheceram artistas, apreciaram as obras criadas por eles e refletiram sobre elas para depois soltar a imaginação e criar as próprias versões

Com apuração de Marília de Lucca (novaescola@atleitor.com.br). Editado por Beatriz Vichessi
Para a releitura, a turma produziu o figurino e optou por fazer o personagem brincar com o livro, em vez de lê-lo, como no original. National Gallery of Art, Washington e arquivo pessoal
A Leitora é uma obra assinada pelo pintor francês Jean Honoré Fragonard (1732-1806). Ele foi um dos nomes da escola de arte rococó. Para a releitura, a turma produziu o figurino e optou por fazer o personagem brincar com o livro, em vez de lê-lo, como no original
Moradores de uma região sem muitas atividades culturais, os alunos da escola EM Professora Leocádia, no Rio de Janeiro, não tinham aulas de Arte até há pouco tempo. O contato quase nulo com o tema resultou no óbvio: eles não possuíam um repertório desejável. Para começar a resolver o problema, Marcela Gaio fez um projeto com referências e releituras de obras de arte (veja acima uma produção dos alunos).

Em Arte, fazer uma referência implica utilizar um ou mais dos elementos da obra para criar outra, que por sua vez, permite reconhecer nela a original. "Um exemplo de referência é L.H.O.O.Q, do francês Marcel Duchamp (1882-1968). Ele colocou um bigode na Mona Lisa, do italiano Leonardo da Vinci (1452-1519)", diz Marco Antônio de Andrade, professor de História da Arte da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). À primeira vista, referências podem parecer cópias. Mas elas têm intervenções, ainda que discretas. Já a releitura é um procedimento que implica somar um significado ao original, incorporando elementos novos. Mona Lisa também foi fonte de releituras, diz Andrade. "Em uma delas, Mônica, de Mauricio de Sousa, ocupa o lugar da original."
Essas duas estratégias de trabalho, tal como a cópia, são reconhecidas no mundo da arte e utilizadas há séculos. Antigamente era imprescindível ser capaz de copiar uma obra consagrada para ser reconhecido. E, até hoje, artistas expressam sua vontade de olhar para o que já foi feito e acrescentar ou modificar algo

Antes de produzir, apreciar obras de arte e refletir sobre elas

Um percurso bem planejado geralmente inclui a exploração da história da arte, das técnicas e das linguagens utilizadas. O mais comum é que a produção de referências e releituras seja feita com desenho e pintura. Marcela inovou, ao propor uma passagem do bidimensional para o tridimensional, já que os jovens foram desafiados a ocupar o lugar dos personagens dos quadros.

Para apresentar o projeto, ela exibiu o clipe de 70 Milllion, da banda Hold Your Horses. Ele mostra releituras de produções como O Nascimento de Vênus, do italiano Sandro Botticelli (1445-1510), com os integrantes do grupo no lugar dos originais.

Em seguida, ela propôs que os estudantes fizessem o mesmo que a banda e fotografassem as produções para uma exposição. Depois de conversarem sobre as características das releituras do clipe, eles pesquisaram obras que interessassem na internet e em livros de arte. "É importante que o professor direcione e acompanhe a busca, intervindo para ajudá-los a apreciar as imagens, indo além de questões estéticas e fazendo questionamentos, para potencializar as interpretações", diz Andrade.

Durante a pesquisa, além de pensar no trabalho a realizar, oriente o grupo a identificar os elementos das imagens e a buscar informações sobre eles. Muito do que for estudado nesse momento é valioso para pensar na referência e na releitura. É importante ainda instigar os alunos a estudar os materiais. "O veludo de um traje pode evocar alguns cheiros. Como retratar isso nas produções, por exemplo?", explica Marisa Szpigel, coordenadora de Arte da Escola da Vila, em São Paulo, e selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.

Obras escolhidas e objetos e materiais selecionados para o cenário e o figurino, os estudantes pensaram, em grupo, sobre as posturas e as expressões corporais. A professora problematizou como passar os originais (bidimensionais) para uma proposta que teria o corpo em destaque. Para enriquecer essa etapa, Marisa sugere programar aulas para laboratórios de expressão corporal e discutir sobre poses e linguagem gestual.

Na hora de fotografar, Marcela auxiliou os alunos quanto ao ângulo, a iluminação, o foco e o enquadramento. Essa parte exige cuidado: nem sempre a falta de foco é ruim, pois ela pode revelar um olhar diferente.

Finalizados os cliques, a educadora abriu espaço para comentários dos jovens. A aluna Gabriela Marcia, 16 anos, comentou: "Transformar uma pintura em fotografia foi como fazer uma obra mais moderna, o que não substitui o talento do pintor. Apenas é uma maneira diferente de ver o quadro".

A proposta organizada por Marcela permitiu que os alunos explorassem performance, fotografia e artes plásticas e, o desenrolar do processo, tal como ela planejou, aproximou os jovens do mundo da arte, fazendo com que refletissem sobre ele. "Os alunos se apropriaram de algo que não era deles, de modo que os quadros se tornassem seus por algum tempo, usando o próprio corpo como suporte", ela comemora.

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professores apaixonados

Professores e professoras apaixonadas acordam cedo e dormem tarde, movidos pela idéia fixa de que podem mover o mundo.
Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas, debilitam as inteligências.
As professoras apaixonadas descobriram que há homens no magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar, que é a arte de dar contexto a todos os textos.
Não há pretextos que justifiquem, para os professores apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de romantismo barato.
Apaixonar-se sai caro! Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio comodista, dão carona para os alunos que moram mais longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria.
Se estão apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver sem paixão, ensinar sem paixão.
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Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de uma explicação, percebem o sorriso do aluno que entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar.
A paixão é inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.
* Gabriel Perissé é Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP e doutor em Filosofia da Educação e doutorando em Pedagogia pela USP; é autor dos livros "Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência); "O leitor criativo" (Omega Editora); "Palavra e origens" (Editora Mandruvá); "O professor do futuro (Thex Editora). É Fundador da ONG Projeto Literário Mosaico ; É editor da Revista Internacional Videtur -Letras (www.hottopos.com/vdletras3/index.htm); é professor universitário, coordenador-geral da ong literária Projeto Literário Mosaico: www.escoladeescritores.org.br)