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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Atividades de interpretação: Eu sei, mas não devia

Marina Colassanti

Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Interpretação

1.Síntese do primeiro parágrafo
A gente se acostuma:
a) à esperança, à ilusão.
b) à velhice, ao abandono.
c) à dor, à agonia.
d) à tristeza, à desilusão.
e) à clausura, ao isolamento.

2. “E aceitando a guerra, aceita os mortos...”
É o mesmo que:
a) E, como aceita a guerra, aceita os mortos.
b) E, sem aceitar a guerra, aceita os mortos.
c) E, para aceitar a guerra, aceita os mortos.
d) E, conquanto aceite a guerra, aceita os mortos.
e) E, embora aceite a guerra, aceita os mortos.

3.Os olhos se chocam à luz natural por:
a)Miopia temporária.
b)Carência de lentes apropriadas.
c)Excesso de substâncias lacrimogêneas.
d)Descostume, falta de hábito.
e)Deficiência visual irreversível.

4. Em todo o texto de Marina Colassanti predomina o (a):
a) amor à natureza e coisas simples da vida.
b) esperança da recuperação da alegria de viver.
c) incerteza sobre o destino futuro do homem.
d) repúdio irreverente ao progresso desumanizador.
e) pessimismo fatalista quanto ao comportamento do homem.

5.E este sentimento predominante, que responde à pergunta anterior, justifica-se no fato de a gente:

a) Esquecer o sol.
b) Pagar.
c) Aceitar os mortos.
d) Ser ignorado.
e) Se acostumar.

6. Porque se acostumam, as pessoa conseguem:

a) compreensão.
b) Felicidade.
c) Progresso.
d) Solidariedade.
e) ISOLAR-SE.

7. Afinal, acostumar-se tanto vale a pena?
Comente a conclusão opinativa de Marina Colassanti.


gabarito (pode ser modificado, pois em textos, nada é definitivo...):
1-E
2-A
3-D
4- B
5- E
6- E



(amo esse texto/ se tiverem outras atividades com ele, me enviem, por favor...)

8 comentários:

  1. OI adorei o texto mas não achei o gABARITO.pEÇO QUE ENVIEM PRO MEU EMAIL POR FAVOR.
    clauciaromeiro77@hotmail.com

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  2. eu gostei muito deste texto das questoes , mas tenho duvidas nas respotas de algumas. peço que me enviem pro emai,
    noeia.melo@hotmail.com

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  3. desculpe , meu email está errado.
    noelia.melo@hotmail.com

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  4. Nossa eu adorei o texto me ajude por favor a interpreta esse texto eu trabalhando com ele no curso pode me ajuda
    o meu email é mirttes19@yahoo.com.br
    fico aguardando

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  5. o texto é ótimo... mas acho que o trabalho com o texto literário deveria priorizar outros métodos, além desses que nós conhecemos (pergunta e resposta... o dialogo com videos, com músicas, por exemplo, seria legal. A literatura deveria entrar na vida dos alunos como fonte transfomadora, de reflexão e conhecimento com aquilo que já têm e ainda podem adquirir!!!

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  6. Adoraria ter o gabarito dessas questões... Meu email é natyelecrist@hotmail.com... Obrigada

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  7. Gostaria de obter sugestões de filmes, letras de música ou qualquer outro gênero discursivo que abordem o mesmo tema dessa crônica. Além das questões de interpretação sugeridas , seria interessante trabalhar a intertextualidade entre obras diferentes. Meu email é: lene_0710@hotmail.com. Obrigada.

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  8. Esse estudo de texto encontra-se no livro LER E PENSAR - INTERPRERAÇÃO DE TEXTOS de Roberto Augusto Soares Leite e José Venícius Marinho Frias, antiga 8a. série, Companhia Editora Nacional. É uma coleção muito antiga, com excelentes textos analisados e com seus respectivos gabaritos...

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professores apaixonados

Professores e professoras apaixonadas acordam cedo e dormem tarde, movidos pela idéia fixa de que podem mover o mundo.
Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas, debilitam as inteligências.
As professoras apaixonadas descobriram que há homens no magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar, que é a arte de dar contexto a todos os textos.
Não há pretextos que justifiquem, para os professores apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de romantismo barato.
Apaixonar-se sai caro! Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio comodista, dão carona para os alunos que moram mais longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria.
Se estão apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver sem paixão, ensinar sem paixão.
Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado, sonhando acordado com a aposentadoria, contando nos dedos os dias que faltam para as suas férias, catando no calendário os próximos feriados.
Os professores apaixonados muito bem sabem das dificuldades, do desrespeito, das injustiças, até mesmo dos horrores que há na profissão. Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e seu protesto é continuar amando apaixonadamente.
Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se dilui no café ralo, não foge pelo ralo, não se apaga como um traço de giz no quadro.
Ter fé impede que o medo esmague o amor, que as alienações antigas e novas substituam a lúcida esperança.
Dar aula não é contar piada, mas quem dá aula sem humor não está com nada, ensinar é uma forma de oração.
Não essa oração chacoalhar de palavras sem sentido, com voz melosa ou ríspida. Mera oração subordinada, e mais nada.
Os professores apaixonados querem tudo. Querem multiplicar o tempo, somar esforços, dividir os problemas para solucioná-los. Querem analisar a química da realidade. Querem traçar o mapa de inusitados tesouros.
Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de uma explicação, percebem o sorriso do aluno que entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar.
A paixão é inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.
* Gabriel Perissé é Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP e doutor em Filosofia da Educação e doutorando em Pedagogia pela USP; é autor dos livros "Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência); "O leitor criativo" (Omega Editora); "Palavra e origens" (Editora Mandruvá); "O professor do futuro (Thex Editora). É Fundador da ONG Projeto Literário Mosaico ; É editor da Revista Internacional Videtur -Letras (www.hottopos.com/vdletras3/index.htm); é professor universitário, coordenador-geral da ong literária Projeto Literário Mosaico: www.escoladeescritores.org.br)