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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Casamento na roça: roteiro



 (A diversão do Casamento Caipira está em toda a sua estrutura, que se faça um arco florido para o altar, que o padre esteja sempre bêbado, que a moça fique feia e barriguda, que os pais sejam bravos e o delegado seja um tanto corrupto bem como o policial, e que os atores se prestem a estarem realmente caracterizados, e que tudo seja uma grande brincadeira).


NARRADOR: __       Mês de.............. aqui na roça,
É tão cheio de alegria
Tudo os caipira se adverti
Pois tem festança tudo dia.
As muié da redondeza faiz quitute bem gostoso
Os hómi faiz as barraca e tamém faiz as foguera
Os casar ensaia as quadriá
Com cumilança, músca e brincadera.

Tem gente qui inté faiz as novena
Pros Santo: Antonho, Pedro e São Jão.
Faiz prumessa di tudo tipo
Pra cunsegui bão casamento e pra festa tê animação.
A festança já teve início
Já comêro pipoca, doce e pinhão
Tem uns hómi já vermeio
Di tano tomá quentão...
Mas agora peço a tenção
Puis vem agora o principar
O casório mais isperado
Daqui deste lugar...
Pedimos a atenção do povo neste momento
Que vai acuntecê agora um casamento


NOIVA: (passando a mão na barriga já desenvolvida) Ah, meu querrrido Romeu, qui eu num me chamo Julieta, mas agora o mar ta feito, onde está você seu tinhoso... Qui mi dexô embuxada cum esse barrigão... (Chora)
PAI: Pramode o qui ocê chora minha flor do sertão?
NOIVA: É porrr causa de Romeu, veja qui aconteceu...
PAI: Dá pra notar i num é di hoje qui o danado ti comeu.
NOIVA: I agorra meu paizin quiido qui faço eu?
PAI: Ocê num vai mar falada, vamo forçar este casório antes da prenha se achegá.
MÃE: Se não casá vai preso depois de capado esse jaguara danado.
NOIVA: Mas meu pai lembre que eu querrro ele cumpretinho, principarmente o principar.
MÃE: Acho mio nóis ih atrais das autoridade pra caça esse danado.
PAI: Mais aí perde a graça puis ele não vai dexá o moço ser capado.
MÃE: Se cumetê essa barbaridade sua fia dispois de casada vai si adiverti cum o que?
PAI: Oía quem chega pressas banda.
MÃE: Si num é o doto delegado.
DELEGADO: Vejo que minha chegada é di muito bom agrado.
PAI: Queremo é di fazê uma recramação, contra o Romeu Foguetão...
DELEGADO: O qui esti raiz anda aprontano pra causá tanto furô?
PAI: Embuxô minha rapariga e fugiu sem da valô...
DELEGADO: O que posso ieu fazê sinão acatá tão bunito pidido?
MÃE: Pur mim vois mecê pega ele i trais pra gente fazê o casório.
DELEGADO: Trago ele intero ou im pedaço?
NOIVA: Pur favo num faça tamanha judiação.
DELEGADO: Vamo logo Setembrino meu puliciar dedicado, vamô acha este meliante disgramado.
SETEMBRINO: Oh seu delegado, é meu primo esse danado e agora deve ta escondido lá no mato.
(Saem e os pais preparam o casório)
MÃE: temo que tê uns convidado e fazê uma festança...
PAI: Vê só qui ieu num quero gasta mutio nem mais de um tostão...
MÃE: Ocê é mutio mão di vaca, oia quiem fui iscoiê.
PAI: Ocê fala i recrama mais na hora si adiverte é di mais.
MÃE: Pare só di cuntá essas coisa qui é segredo di casar...
PADRE: Oia quem se achega, a quem vamo batizar?
PAI: Batizado ainda qui nada, é casório qui a gente veio acertar...
PADRE: Mais intão vamo aproveita a festança da quermece qui acuntece no arraiar.
MÃE: Vambora intão qui assim sai tudinho di graça coisa qui o firmino vai gostá.
PADRE: Intão qui comemo, cadê a noiva, qui si aprochegue aqui du artar.
NOIVA: To aqui seu padre, sua bênça...
PADRE: Agora intão só saio um isntantinho até o nivo se achegá... Qui num si demore o danado qui inda hoje ieu tenho di jantá...
DELEGADO: Cadê ocê seu jaguara, será ocê qui ta fingindo qui assite a gente? Ih tarveiz ocê? Ou será este aqui incuido qui inté parece qui ta atocaiado isperano a gente passá...
SETEMBRINO: Ih é ele sim meu chefe sinhô delegado... É meu primo namorado disgramado...
DELEGADO: Namoradô é? Agora vai tê de si casá pra aprendê aonde amarra os burro nais sombra deste lugá.
SETEMBRINO: Dó ieu tenho di ocê qui devia ta imbriagado, puis acabô fazendo mar pra moça mais feia do pedaço.
NOIVO: Ih num é qui ieu tava mesm? Bêbado quiném um gambá... Isso deve tê disconto neste caso num há di tê um jeitinho assim di alguns conto?
DELEGADO: Óia inté qui tiria, mais o Sinhô Firmino já cobriu tudo qui é oferta qui o sinhô fizesse...
SETEMBRINO: Óia qui a bolada num foi poça, vai inté sobrá pro méis qui vem...
NOIVO: Isso é corrupção, isso num podi acuntecê...
DELEGADO: Vamo ino, qui já tão ti isperano, uma noiva feia, um padreco muito bêbodo e um pai com um trabuco deste tamanho.
NOIVO: Valha-me Deus meu Santo Antonho...
PADRE: Vamo realiza a cirimônia, estão aqui reunido a Sinhá Chiquinha Dengosa e cadê o pobre qui endoideceu em ser teu marido?
NOIVA: Ainda num aprerrreceu meu padre... Ih ele num vem... Ah mãe acho qui vô dismaiá.
MADRINHA: Dismaia não ô guria sinão ieu caso no teu lugar...
PADRE: Seu Firmino cadê o marido?
PAI: Já ta vino im intrega ispeciar...
PADRE: Ih, já tenho de ih andano qui acharo o moço fujão...
DELEGADO: Achei ele seu padre, seu Firmino... Tava ali atrais agachado...
NOIVO: Profavô vê se mi sorta...
DELEGADO: Qui conteceu setembrino?
SETEMBRINO: Quase que tento fugi seu delegado.
NOIVO: Craro qui não seu moço, isso é uma calúnia que levanta desde dos tempo di piá...
DELEGADO: Vê intão si si isprica.
NOIVO: É qui num tava não iscundido, tava ieu mutio apertado e tive qui ali agarra o mato, ara si ieu ia farta.
PADRE: Ih agora meu fio já deve ta bão da barriga, podemo começá a sessão?
NOIVO: Já to sim, mutio bão seu padre, sua bênça, será qui num tem um jeito di mi ajuda a fugi?
PADRE: Até ieu meu fio já tentei fugi desti lugá, mais ti aprumo esta prosa qui meio lugá qui esti num há.
PAI: Vamo começá logo ih acabá cum essa inrolação?!
MÃE: Vamo logo com o casório qui ieu choro im tudo eiles...
PAI: Chora não minha doce.
MÂE: Num choro a toa não... Choro pramode ih tudo bunito, minha Chiquinha co Romeu Foguetão...
PADRE: Vamo logo intão dispois vem as reza.  O pai dela é Firmino e o dele é Zé Bento...Acho qui foi priciso mais di mir promessa pra ela arrumá casamento.
MÃE: Ih lá vem vindo a noiva bunita, Ta é mutio formosa, o nome di minha fia é Chiquinha Dengosa.
MADRNHA: Esse moço vai si acorrenta como si fosse cachorro loco... mas si uma dela dê uma durmecida ih ieu tõ loca pra casá...
NOIVO: Si acuntece milagre por favo sarve eu, sô, esse moço.
PAI: Qui esi moço num si atreva a fugi nem mais um passo, qui cometo um pecado, puis to nesta ingreja tudo armado...
SETEMBRINO: Seu Firmino ta mutio armado, mais qui o seu delegado.
PADRE: Neste artar tudinho enfeitado, com flores, vela e banderinha, que comece o casório, ao sinar do coroinha.
COROINHA (Bate o sino... ). Oh meu padre querido vê si acaba rápido este selviço qui tenho incontro marcado lá no pasto cuma cabrita.
PADRE: Oh Sinhá Chiquinha Dengosa, promete di coração tomá pra marido ih pra tuda vida o Romeu Foguetão?
NOIVA: Qui pregunta mais isquisita o seu vigário feiz pra mim? Ieu vim aqui mais romeuzinho num foi pramode nois dize um sim?
PADRE: E ocê seu danadinho, Romeu Foguetão, que me olha feito carnero na hora do sacrifisso e esses zóio assim tudo prosa, qué mesm tomá di isposa a Chiquinha Dengosa?
BARRAQUEIRA: IH cumo ieu fico seu padre? Ieu aqui cum esse barrigão? Aqui ele tamém quis mais qu minha mão...
PADRE: A coisa tá ficano feia, ta parecendo dia di leilão...
BARRAQUEIRA: Ieu qui tenho qui casa Cum o Romeu Foguetão...
NOIVO: Ah, meu padinho santo Antonho qui mi sarve deste canhão, cada reza qui eu faço mais mi aparece um dragão.
PAI: Cum ela naum seu padre, já qui ele embuxo minha fia é cua minha fia qui adi casá...(Mostra a ele a arma com um cutucão nas costas, e o delegado no outro lado faiz o sinal de a ele capar).
DELEGADO: Quero lembrá ao moço como é qui fica a vida de um porção dispois de capado...
SETEMBRINO: Só serve prá banha o coitado... Ai qui dó crendioscruz.
MOÇA: Olá, cum sua licença seu padre, seu delegado... Procuro meu futuro marido o pobre anda assim meio disgarrado.
PADRE: Qui ta acuntecendo mia fia, num vai mi dizê qui o teu futuro marido é o Romeu Foguetão...
MOÇA: É sim ele meu bão padre ih a gente inté já ta di casamento marcado lá na ingreja da Conceição.
NOIVA: Assim num vale, ele é pió qui cueio.
MÃE: Ih é pió qui galinha...
BARRAQUEIRA: IEu peço qui pare seu padre, puis nóis já temo pra mais di treis fio.
NOIVO: Ocê sabe qui num sabi da verdadi... Nem tudinho é meu...
DELEGADO: Agora já dá pra sabe? Tem uns exame que chamam de dnh... Mais ocê moça bunita, já qui o Romeuzin não te quis me acieta no lugá?
MOÇA: Ah seria di bom gardo, fiz tanta promessa pro Sãotontonho, fiz o pobre ficá di cabeça pra baixo num copo di água fria e cum melado, pulei até mesmo as foguera di queima meus fundilho...
DELEGADO: Mais só mi conta deste traia num fico cum nenhum fio...
MOÇA: Qui nada di mim só depois di casada, sou uma moça preparada...
PAI: Seu delegado, ta na hora di resolve esse probrema... Faiz o moço si casa, ou capa ocê ou eu mesmo capo...
DELEGADO: Ta na hora di iscoeiê... Vai pra cadeia capado ou sai daqui casado?
PADRE: Quem pregunta sou ieu aqui na ingreja... Casa meu fio, diz ih é logo...
NOIVO: O meu padre amigo prodia me apregunta traveis  a pregunta?
PADRE: Romeuzinho Foguetão toma pra esposa a Chiquinha Dengosa?
NOIVO: Ara... Ih num havia de querê, os sinhô sabem bem minha opinião, mais si não casa eles vão tirá meu brinquedo, ficarei então capado ou irei para a prisão... Minha resposta mais honesta é ficar todo cumpleto, devo me entrega pra esti destino marcado e fica mesmo casado.
NOIVA: Intão agorrra o padre si aprrresse e diga logo a bênça, ih si ajeite hómi qui casório num é doença.
PADRE: Ieu ispero qui si acustume cum a vida di casado, é um cabresto colocado e nunca mais desmanchado...
MÃE: Anda logo seu padre, óia as hora qui passa...


NARRADOR:
Cum amor ih alegria
Vamo logo é pra festança
Que tem um monti di barriga vazia
Os convidado vão festano
O leitão esturricado
feito pela tonha
Tem pipoca ih tem pamonha
Mio verde cum fartura
Tem cabrito ih frango assado
Tem inté rapadura....
Doce di leite ih pé di muleque
Uns quitute sargado


PADRE: Puis intão istão os dois bem casado, em nome do cravo da rosa ih du manjericão... caso nesti momentu a Chiquinha Dengosa quih agora tem um maridu o Romeu Foguetão!
PAI: Ih viva os noivo!
TODOS: VIVA!!!
PADRE: Chame agora o sanfoneiro que o baile vai começa, vamo dança uma quadriá, cada um em seu lugá!
(Começa a música e o narrador faz os comentários)

NARRADOR:
           

Tudos os caipira a caminho da roça...
Cada um co seu par
Oia que o sol vem nascendo
Protege as vista
Ih toma mutio cuidado qui
Tem cobra no quintar
(óia As cobra)
É mentira!
Ih agora faiz uma fila puis tem que passá o ribeirão...
Os hómi tira as botina
As muié levanta o saião...
Tem inté jacaré nestes matos
Òia só tem um no seu pe´!
Num liga qui é mentira
É só pra fazê ocêis corrê...
Ih começa a chuve na roça
Vamo vê o qui vai cuntecê...
Os hómi engancha as moça
Pr’elas si protegê.
Agora vamo carregá as moça
Iguar um pangaré!
Ara qui parece tordilho
Chucro ih bem marvadão...
Roda cum a companheira
Ih troca agora de seu par
Dá uma ou duas vorta
Pra dispois arretorná...
Ih ela finge qui num gosta
Mas adora namorá
Dá uma flor pra ela
Qu’ela vai si incantá!
Vamo agora dano um adeus
Esperano o ano passá
Pedino pra Deus nosso Sinhô
Qui proteja os festero
pra´qui no ano qui vem
tudo nóis possa vortá!

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professores apaixonados

Professores e professoras apaixonadas acordam cedo e dormem tarde, movidos pela idéia fixa de que podem mover o mundo.
Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas, debilitam as inteligências.
As professoras apaixonadas descobriram que há homens no magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar, que é a arte de dar contexto a todos os textos.
Não há pretextos que justifiquem, para os professores apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de romantismo barato.
Apaixonar-se sai caro! Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio comodista, dão carona para os alunos que moram mais longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria.
Se estão apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver sem paixão, ensinar sem paixão.
Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado, sonhando acordado com a aposentadoria, contando nos dedos os dias que faltam para as suas férias, catando no calendário os próximos feriados.
Os professores apaixonados muito bem sabem das dificuldades, do desrespeito, das injustiças, até mesmo dos horrores que há na profissão. Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e seu protesto é continuar amando apaixonadamente.
Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se dilui no café ralo, não foge pelo ralo, não se apaga como um traço de giz no quadro.
Ter fé impede que o medo esmague o amor, que as alienações antigas e novas substituam a lúcida esperança.
Dar aula não é contar piada, mas quem dá aula sem humor não está com nada, ensinar é uma forma de oração.
Não essa oração chacoalhar de palavras sem sentido, com voz melosa ou ríspida. Mera oração subordinada, e mais nada.
Os professores apaixonados querem tudo. Querem multiplicar o tempo, somar esforços, dividir os problemas para solucioná-los. Querem analisar a química da realidade. Querem traçar o mapa de inusitados tesouros.
Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de uma explicação, percebem o sorriso do aluno que entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar.
A paixão é inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.
* Gabriel Perissé é Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP e doutor em Filosofia da Educação e doutorando em Pedagogia pela USP; é autor dos livros "Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência); "O leitor criativo" (Omega Editora); "Palavra e origens" (Editora Mandruvá); "O professor do futuro (Thex Editora). É Fundador da ONG Projeto Literário Mosaico ; É editor da Revista Internacional Videtur -Letras (www.hottopos.com/vdletras3/index.htm); é professor universitário, coordenador-geral da ong literária Projeto Literário Mosaico: www.escoladeescritores.org.br)