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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A Literatura pode ser útil e gostosa


entrevista com Celso Sisto, publicada na edição Mundo Jovem nº 429, agosto de 2012.
Celso Sisto
Celso Sistoescritor, especialista em Literatura Infantil e Juvenil e doutor em Teoria da Literatura.
Quando mudanças curriculares são planejadas para as escolas, por vezes se discute o que é importante e o que pode ser deixado de lado. A bola da vez tem sido a Literatura, cuja permanência vem sendo questionada. E apesar de hoje se buscar a universalização da leitura e da escrita, muitos estudantes terminam o Ensino Médio sem saber ler e escrever plenamente. Essa realidade pode ser transformada quando a escola encarar a Literatura como um ato criativo e prazeroso para crianças e jovens. A fim de provocar uma reflexão sobre essa atividade tão fundamental, conversamos com o escritor carioca Celso Sisto.
  • É possível dizer que fazer literatura é um ato de criação?
    A literatura não só é um ato de criação como é um ato de recriação, um ato de leitura de mundo. Quando produzimos um texto, isso nos leva a praticar uma série de outras coisas, a fazer descobertas sobre nós, sobre o mundo, sobre as possibilidades da linguagem, sobre as possibilidades de se comunicar com o outro. Isso tudo é um ato de criação. Mas a literatura enquanto ato de criação requer do escritor um conhecimento, uma imersão nesse universo para que ele possa ser suficientemente estimulante e para que cada um possa descobrir o seu jeito de lidar com a língua, com o texto e com a literatura.
    Ler também é um ato criativo?
    Exatamente. Porque você cria junto com o que está criado. Ler literatura é sempre um exercício de colocar em xeque a sua própria vivência, a sua própria história, o seu próprio conhecimento da vida. Na verdade, ler é um exercício de compartilhamento. É por isso que podemos ler o mesmo livro e não estarmos lendo a mesma obra. Porque cada leitor é único e cada leitor traz para essa leitura a sua bagagem de leitura, a sua própria história. Isso é sempre um ato também de interpretação. Ler e interpretar é criar. Então, para quem escreve, para quem lê, para quem ouve, esse vai ser sempre um exercício de criação.
  • Então, produzir ou ler um texto pode ajudar a amadurecer a pessoa?
    O exercício literário é sempre um exercício de autoconhecimento. Criar literatura, escrever um livro, um texto, é sempre um exercício. E é preciso ter um projeto e investir nele. Para escrever alguma coisa nova é preciso um ponto de partida que venha ao encontro das angústias, das ansiedades, da necessidade de comunicação com o mundo. Seria, por exemplo, questionar-se: o que eu quero falar nesse momento da minha vida para as pessoas? Como posso contribuir para este mundo através da minha arte maior, que é o uso da linguagem, para que vivamos num mundo melhor?
  • A pessoa já nasce para ser escritor ou todos podem ser escritores?
    Um escritor não nasce pronto, de jeito nenhum. Não acredito nisso. Determinadas habilidades do ser humano podem estar com uma latência maior dentro do sujeito, mas tudo é o exercício. A vida é que vai colocando experiências nas quais se vai exercitando determinadas habilidades. Acho que a leitura como um ato positivo e a escrita como um exercício permanente de criação e de descobertas são valores que podem ser experimentados na vida de qualquer pessoa. É preciso, sim, que tenhamos cruzado na vida com alguém que percebe a validade disso e leve as pessoas a exercitarem essas coisas. Acredito que todo mundo pode escrever, que todos podem ser grandes leitores, mas é preciso exercitar essas questões. É necessário estar atento para o desejo, porque, na verdade, o que move o ser humano é o desejo. Se tenho o desejo de ser um escritor, e eu corro atrás disso, leio muito, exercito, vou melhorando o meu fazer, eu tenho possibilidade de ser bom naquilo que faço. Então, isso é um exercício de experimentação. Não é um dom que caiu do céu.
  • As oficinas literárias, pela sua experiência, são uma boa estratégia para incentivar o surgimento de leitores e escritores?
    Na oficina que realizo, que se chama Laboratório de Autoria, o grande barato é que é um trabalho de troca. Os alunos produzem textos e leem seus textos. Todos dão palpite, participam. E acabamos passando por um processo quase que de uma escrita coletiva. Ou seja, o texto é individual, mas todos têm a possibilidade de dar sugestões, de apontar melhorias a serem feitas no texto do outro. As pessoas que querem ser escritoras devem estar voltadas para o público ao qual querem escrever. Existe toda uma linguagem diferente, recursos da língua. Nas nossas oficinas, especificamente, vejo que muitas vezes os alunos querem escrever para criança, eles têm uma certa paixão pela literatura infantil, mas conhecem pouquíssimo dela. Antes de tudo, é preciso trazer para esse aluno um conhecimento do que está sendo produzido na literatura infantil contemporânea, não só no Brasil como em outros mercados editoriais. E acho que a oficina faz bem isso. Mantemos contato permanente com grandes escritores e com grandes obras. Isto é fundamental: que os alunos conheçam essa literatura e esse mercado, os estilos que estão sendo explorados.
  • Então, antes de ser escritor, é preciso ser um bom leitor?
    Um bom escritor tem que ser, sobretudo, um bom leitor. É impossível que um escritor se forme se ele não for um bom leitor. Tem que ser um leitor muito atento. É preciso frequentar bibliotecas, ir nas livrarias, ver as pessoas manipulando livros, ouvir comentários dos leitores. E, no caso da literatura infanto-juvenil, é importante ir às escolas, conversar com o leitor para o qual você escreve. É claro que é um leitor hipotético, mas ele não pode ser um leitor fantasma na vida do escritor. Você precisa estar presente na vida do leitor, você precisa saber que está escrevendo para um público do século 21, um público moderno, que pode ter acesso à literatura das mais diferentes formas. É preciso que o escritor esteja atento para poder perceber de que forma o seu texto está chegando nesse leitor, o que está fazendo vibrar esse leitor, para que possa estar sempre se aprimorando. Outra coisa muito importante nesse contato do escritor com o público é desmistificar a figura do escritor. O escritor não é um ser de outro mundo, não é um ser que vive encastelado, isolado do mundo. É um ser de carne e osso, comum, como qualquer outro profissional.
  • A presença do escritor para a criança e o jovem também é algo marcante?
    A presença do escritor na vida de uma criança que foi marcada por uma obra é sempre muito benéfica, muito positiva. Lembro de uma experiência minha quando estava na sexta série, quando li uma obra que fazia muito sucesso naquela época, O menino de asas, de Homero Homem, escritor consagrado na década de 1970. A professora de literatura levou nossa turma da escola na casa de Homero. Ele recebeu a turma inteira, preparou um lanche, autografou nossos livros, respondeu às nossas perguntas. E isso foi determinante na minha vida. Naquele momento descobri que eu queria ser um escritor. E a experiência e o contato com aquele escritor abriram em mim uma veia que jamais foi esquecida. Então foi fundamental na minha vida ter contato com um escritor de verdade, de carne e osso. Eu pude ver naquele momento que isso não era uma coisa de outro mundo. E acredito que o meu papel hoje é também de desmistificar para outras crianças e jovens essa figura do escritor.
  • O que você tem a dizer sobre sua experiência como professor de Literatura?
    Eu invisto, antes de qualquer coisa, em estabelecer uma relação de afeto com os meus alunos. E procuro fazer isso mediado pela literatura, pela excelência do texto, pela beleza da poesia, pela sedução que as imagens podem efetuar em mim, pela canção, pela letra de uma música. Acho que a linguagem das artes é sempre uma possibilidade de diálogo e de aproximação de qualquer universo. Quando temos dificuldade de nos relacionar com qualquer grupo, a primeira opção é trazer um objeto de arte que possa estabelecer essa aproximação, tanto de lá quanto de cá. Vejo como os jovens de hoje experimentam muito mais a escrita do que os meus colegas de escola. Porque hoje existe a possibilidade de usar essa escrita no telefone celular, no computador, no tablet, nesse aparato tecnológico que não existia antes. A sociedade em que vivemos hoje estimula o uso dessa tecnologia, que envolve o uso da escrita o tempo todo. Acho muito legal essa possibilidade que o jovem tem de utilizar todo esse aparato para exercitar a escrita das suas ideias, do seu pensamento. E tenho certeza de que com isso temos possibilidades de descobrir muitos novos escritores. Muitos escritores começaram a aparecer hoje através de escritas em blogs, escritas em sites da internet. Há até casos em que os textos de blog depois viraram livro. Acho isso um excelente sinal dos tempos.


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professores apaixonados

Professores e professoras apaixonadas acordam cedo e dormem tarde, movidos pela idéia fixa de que podem mover o mundo.
Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas, debilitam as inteligências.
As professoras apaixonadas descobriram que há homens no magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar, que é a arte de dar contexto a todos os textos.
Não há pretextos que justifiquem, para os professores apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de romantismo barato.
Apaixonar-se sai caro! Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio comodista, dão carona para os alunos que moram mais longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria.
Se estão apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver sem paixão, ensinar sem paixão.
Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado, sonhando acordado com a aposentadoria, contando nos dedos os dias que faltam para as suas férias, catando no calendário os próximos feriados.
Os professores apaixonados muito bem sabem das dificuldades, do desrespeito, das injustiças, até mesmo dos horrores que há na profissão. Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e seu protesto é continuar amando apaixonadamente.
Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se dilui no café ralo, não foge pelo ralo, não se apaga como um traço de giz no quadro.
Ter fé impede que o medo esmague o amor, que as alienações antigas e novas substituam a lúcida esperança.
Dar aula não é contar piada, mas quem dá aula sem humor não está com nada, ensinar é uma forma de oração.
Não essa oração chacoalhar de palavras sem sentido, com voz melosa ou ríspida. Mera oração subordinada, e mais nada.
Os professores apaixonados querem tudo. Querem multiplicar o tempo, somar esforços, dividir os problemas para solucioná-los. Querem analisar a química da realidade. Querem traçar o mapa de inusitados tesouros.
Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de uma explicação, percebem o sorriso do aluno que entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar.
A paixão é inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.
* Gabriel Perissé é Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP e doutor em Filosofia da Educação e doutorando em Pedagogia pela USP; é autor dos livros "Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência); "O leitor criativo" (Omega Editora); "Palavra e origens" (Editora Mandruvá); "O professor do futuro (Thex Editora). É Fundador da ONG Projeto Literário Mosaico ; É editor da Revista Internacional Videtur -Letras (www.hottopos.com/vdletras3/index.htm); é professor universitário, coordenador-geral da ong literária Projeto Literário Mosaico: www.escoladeescritores.org.br)