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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A Chuva - Poema de Arnaldo Antunes


Ilustração: Nina

 A chuva derrubou as pontes. A chuva transbordou os rios.

 A chuva molhou os transeuntes. A chuva encharcou as
 praças. A chuva enferrujou as máquinas. A chuva enfureceu
 as marés. A chuva e seu cheiro de terra. A chuva com sua
 cabeleira. A chuva esburacou as pedras. A chuva alagou a
 favela. A chuva de canivetes. A chuva enxugou a sede. A
 chuva anoiteceu de tarde. A chuva e seu brilho prateado. A
 chuva de retas paralelas sobre a terra curva. A chuva
 destroçou os guarda-chuvas. A chuva durou muitos dias. A
 chuva apagou o incêndio. A chuva caiu. A chuva
 derramou-se. A chuva murmurou meu nome. A chuva ligou o
 pára-brisa. A chuva acendeu os faróis. A chuva tocou a
 sirene. A chuva com a sua crina. A chuva encheu a piscina.
 A chuva com as gotas grossas. A chuva de pingos pretos.
 A chuva açoitando as plantas. A chuva senhora da lama. A
 chuva sem pena. A chuva apenas. A chuva empenou os
 móveis. A chuva amarelou os livros. A chuva corroeu as
 cercas. A chuva e seu baque seco. A chuva e seu ruído de
 vidro. A chuva inchou o brejo. A chuva pingou pelo teto. A
 chuva multiplicando insetos. A chuva sobre os varais. A
 chuva derrubando raios. A chuva acabou a luz. A chuva
 molhou os cigarros. A chuva mijou no telhado. A chuva
 regou o gramado. A chuva arrepiou os poros. A chuva fez
 muitas poças. A chuva secou ao sol.

Poema de Arnaldo Antunes, ilustrado por Nina. 


Vai chover poesia 

Use o concretismo de Arnaldo Antunes parainiciar uma viagem pela linguagem poética

Sá para imaginar um poema sem versos? Até 1956, quando surgiu a poesia concreta, poucas pessoas ousavam pensar assim. Décio Pignatari e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos deram destaque a aspectos visuais e sonoros e o papel principal do texto passou a ser da palavra. A seguir, você conhece as sugestões de Odonir Araújo de Oliveira, professora de Língua Portuguesa e Literatura e assessora pedagógica em São Paulo, para trabalhar o poema de Arnaldo Antunes em aula de aula. As idéias servem para todas as séries. Aprofunde as atividades de acordo com a resposta da turma. "Para explorar a linguagem poética é fundamental estimular as descobertas, mostrando que é possível ter inúmeras impressões", ensina Odonir.
Inicie com a leitura frase a frase para que os estudantes percebam o ritmo, as rimas e a estrutura. Estimule-os a dar explicações que justifiquem o modo como o autor construiu o texto. Em seguida peça que leiam novamente, deste vez prestando atenção à sonoridade: a repetição da palavra chuva e o efeito causado pelo som /ch/. Afinal, o que o poeta quer dizer?

Forma trabalhada, é hora de explorar o conteúdo. Promova uma discussão sobre as prosopopéias (personificações das ações e características atribuídas à chuva) e as metáforas. No texto, a chuva passa a agir como ser humano? Todas as descobertas podem ir para um grande painel, em que os alunos retratarão com desenhos, colagens ou pinturas as diversas situações imaginadas pelo poeta. O resultado será uma visão global daquilo que o texto sugere. Nesta fase, inclua o colega de Arte para uma aula sobre grafite, expressão artística típica das grandes cidades (leia uma sugestão sobre o tema no Site do Professor).

Para turmas mais avançadas é possível também explorar a estrutura sintática. Compare as frases em que a palavra chuva aparece como sujeito agente, orações em que o verbo está elíptico ("A chuva sobre os varais") e frases nominais ("A chuva apenas", "A chuva de canivetes"). Questione sobre as diferenças e o efeito que cada uma confere aos versos. Peça que listem todas as estruturas que aparecem no poema e os exemplos que correspondem a cada uma delas.

Toda essa discussão vai abrir espaço para desenvolver uma série de atividades. Peça uma pesquisa sobre o concretismo. Vale trazer outros poemas e letras de música de Arnaldo Antunes para cantar e declamar na sala de aula. Sugira que todos criem as próprias poesias.
Quer saber mais?
As Coisas, Arnaldo Antunes, 96 págs., Ed. Iluminuras, tel. (11) 3068-9433, 21 reais 

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professores apaixonados

Professores e professoras apaixonadas acordam cedo e dormem tarde, movidos pela idéia fixa de que podem mover o mundo.
Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas, debilitam as inteligências.
As professoras apaixonadas descobriram que há homens no magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar, que é a arte de dar contexto a todos os textos.
Não há pretextos que justifiquem, para os professores apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de romantismo barato.
Apaixonar-se sai caro! Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio comodista, dão carona para os alunos que moram mais longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria.
Se estão apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver sem paixão, ensinar sem paixão.
Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado, sonhando acordado com a aposentadoria, contando nos dedos os dias que faltam para as suas férias, catando no calendário os próximos feriados.
Os professores apaixonados muito bem sabem das dificuldades, do desrespeito, das injustiças, até mesmo dos horrores que há na profissão. Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e seu protesto é continuar amando apaixonadamente.
Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se dilui no café ralo, não foge pelo ralo, não se apaga como um traço de giz no quadro.
Ter fé impede que o medo esmague o amor, que as alienações antigas e novas substituam a lúcida esperança.
Dar aula não é contar piada, mas quem dá aula sem humor não está com nada, ensinar é uma forma de oração.
Não essa oração chacoalhar de palavras sem sentido, com voz melosa ou ríspida. Mera oração subordinada, e mais nada.
Os professores apaixonados querem tudo. Querem multiplicar o tempo, somar esforços, dividir os problemas para solucioná-los. Querem analisar a química da realidade. Querem traçar o mapa de inusitados tesouros.
Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de uma explicação, percebem o sorriso do aluno que entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar.
A paixão é inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.
* Gabriel Perissé é Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP e doutor em Filosofia da Educação e doutorando em Pedagogia pela USP; é autor dos livros "Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência); "O leitor criativo" (Omega Editora); "Palavra e origens" (Editora Mandruvá); "O professor do futuro (Thex Editora). É Fundador da ONG Projeto Literário Mosaico ; É editor da Revista Internacional Videtur -Letras (www.hottopos.com/vdletras3/index.htm); é professor universitário, coordenador-geral da ong literária Projeto Literário Mosaico: www.escoladeescritores.org.br)