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domingo, 19 de agosto de 2012

Gramática com textos: 6º ano - futuro do presente



Introdução 
Nesta sequência, o intuito é refletir sobre o uso do futuro do presente do modo indicativo. Como nas aulas anteriores, a ideia não é oferecer regras pura e simplesmente, mas permitir que os alunos observem a língua e seus usos, e conheçam o caráter dinâmico que a atravessa, modificando construções e modos de uso. Nem sempre, isso significa exclusão de uma das formas; muitas vezes, diferentes usos e formas coexistem, cabendo a quem fala ou escreve escolher uma delas de acordo com o contexto e os objetivos da comunicação. 

Objetivos 
Analisar o uso do futuro do presente. 
Reconhecer formas utilizadas na Língua Portuguesa para indicar o futuro do presente. 

Conteúdo -Futuro do presente 
Ano - 6º ano 
Tempo estimado  - Cinco aulas 
Material necessário 
Aparelho de som ou computador com caixas de som; gravação da música "Um índio", de Caetano Veloso; letra da música impressa; cópia de uma entrevista publicada em revista.

Desenvolvimento 
1ª etapa - Inicie a aula tocando a música abaixo.


Um índio - Caetano Veloso
Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante 
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante 
E pousará no coração do hemisfério sul 
Na América, num claro instante 
Depois de exterminada a última nação indígena 
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida 
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias 

Virá 
Impávido que nem Muhammad Ali 
Virá que eu vi 
Apaixonadamente como Peri 
Virá que eu vi 
Tranquilo e infalível como Bruce Lee 
Virá que eu vi 
O axé do afoxé Filhos de Gandhi 
Virá 

Um índio preservado em pleno corpo físico 
Em todo sólido, todo gás e todo líquido 
Em átomos, palavras, alma, cor 
Em gesto, em cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico 
Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico 
Do objeto-sim resplandecente descerá o índio 
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará 
Não sei dizer assim de um modo explícito 

Virá 
Impávido que nem Muhammad Ali 
Virá que eu vi 
Apaixonadamente como Peri 
Virá que eu vi 
Tranquilo e infalível como Bruce Lee 
Virá que eu vi 
O axé do afoxé Filhos de Gandhi 
Virá 

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos 
Surpreenderá a todos não por ser exótico 
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto 
Quando terá sido o óbvio


Terminada a audição, pergunte aos estudantes se entenderam o conteúdo da composição. Ouça o que dizem. 
Após essa conversa inicial, dê aos alunos a letra da música. Peça que a leiam. Explicite quem são Muhammad Ali, Bruce Lee, o grupo Filhos de Gandhi e o personagem Peri mencionados na música. Leve para a classe um exemplar de O Guarani, de José de Alencar (1829-1877) e diga aos alunos que o índio foi um importante personagem na literatura brasileira, sobretudo no período denominado Romantismo. Cite os romances O Guarani e Iracema em que o índio se junta ao europeu para constituir a nação brasileira. Mostre aos alunos que a canção de Caetano também alude a elementos estrangeiros, entrelaçando-os à figura do índio. Toque novamente a canção para que possam acompanhá-la com a leitura da letra. 

2ª etapa 
Pergunte à classe quais tempos verbais simples - formados por um único verbo - aparecem na letra da canção. Peça que os assinalem na letra, separando os que indicam futuro daqueles que apontam para o passado e o presente. Faça a correção junto com eles. 
Retome os verbos assinalados pelos alunos na música de Caetano Veloso. Discuta com eles o valor semântico dos verbos indicativos de futuro que aparecem na letra: eles assinalam uma ação vindoura e possuem caráter de certeza. Peça aos alunos que reescrevam no caderno a primeira e a terceira estrofes da canção, mudando "um índio" para "índios". Faça a correção e aponte a questão ortográfica que particulariza essa pessoa do discurso nesse tempo: a terminação "ão". 

3ª etapa 
Peça que a classe se reúna em duplas e entregue a cada uma um trecho de uma entrevista em que o verbo auxiliar ir no presente do indicativo acompanhado do de um verbo no infinitivo denote ideia de futuro (eu vou viajar, eles vão sair etc). Selecione a entrevista previamente.

Proponha que as duplas leiam os trechos da entrevista e observem como é a estrutura usada para dar a ideia de futuro. É a mesma construção que identificaram na letra da canção? O que muda? Qual delas é mais facilmente encontrada no cotidiano? Peça que discutam em dupla e registrem no caderno suas ideias e, em seguida, discuta-as coletivamente. 

Explique aos alunos que o uso do futuro do presente na Língua Portuguesa predomina no registro escrito - como na letra da canção, por exemplo. Já no falado, como a entrevista, ele concorre com a forma constituída pelo uso do auxiliar ir seguido de verbo no infinitivo. Construa com os alunos algumas frases em que esse uso apareça. Escreva no quadro algumas frases e peça que a classe copie e transforme-as usando o tempo simples. Exemplos: Eu vou nadar hoje à tarde (Eu nadarei hoje à tarde). Nós vamos sair mais cedo da escola amanhã (Nós sairemos mais cedo da escola amanhã). Eles não vão acreditar no que fizemos ontem (Eles não acreditarão no que fizemos ontem). 

Como tarefa de casa, proponha que procurem o uso do verbo ir no presente do indicativo seguido do infinitivo para denotar ação futura em histórias em quadrinhos. Peça que eles reproduzam no caderno a fala da personagem e a reescrevam, utilizando o futuro simples. 

4ª etapa
Coloque no quadro o título da notícia publicada no jornal Folha de S.Paulo no dia 17 de agosto de 2010: Contato com Ets virá em 25 anos, afirma pesquisador americano. Peça aos alunos que identifiquem os tempos verbais que ocorrem nesse título. 
Discuta com eles os dois tempos: o presente - "afirma pesquisador americano" - e o futuro - "contato com Ets virá em 25 anos". O primeiro verbo denota ação futura e o segundo, a ação presente. Nos dois casos, no entanto, não há traço de dúvida; as ações aparecem como certas. 

Em seguida, peça aos alunos que escrevam, em duplas, manchetes à semelhança que leram, explicitando seus desejos. Exemplos: "Cura do câncer virá em um ano, confirma médico brasileiro"; "Fim da fome no mundo virá em seis meses, dizem autoridades internacionais" ou "Fim da exploração infantil virá em horas", afirma Pedro João, aluno do 6º ano da Escola X. 

Peça que os alunos leiam os títulos que escreveram e aponte a eles as eventuais correções ortográficas e sugira a montagem de uma primeira página dos desejos da classe. Peça que escrevam os títulos em tiras de papel e colem-nas sobre uma folha de jornal, simulando as manchetes da primeira página. É interessante que façam a escolha de um título para o jornal: Folha do Futuro, O Nosso ideal será... É uma escolha, mas, você, professor, nas suas sugestões, pode sinalizar a dimensão do futuro, tema das produções e das aulas. 

5ª etapa - Dê aos alunos o texto da notícia abaixo, publicada na Folha de S. Paulo.

Contato com ETs virá em 25 anos, afirma pesquisador americano
A humanidade pode encontrar uma forma de inteligência extraterrestre dentro dos próximos 25 anos, afirmou ontem o astrônomo Seth Shostak do Instituto Seti (sigla inglesa de "Busca por Inteligência Extraterrestre"). 
Shostak fez sua previsão durante uma conferência na sede do Seti em Mountain View, na Califórnia. "Jovens da platéia, acho que há uma chance bastante boa de que vocês vejam isso acontecer [durante suas vidas]", afirmou ele. A dificuldade, para o cientista, será entender a mensagem estelar. 
A partir de 2015, um novo grupo de telescópios permitirá que o Seti procure sinais de rádio de centenas de milhares de sistemas estelares, o que facilitaria o primeiro contato com uma civilização alienígena avançada, apostou Shostak em conversa com repórteres do site Space. com. 
Fonte: Folha de S. Paulo. 17 ago. 2010, A16.

Peça para que façam a leitura em dupla. Em seguida, peça que sublinhem, no texto, os verbosafirmou, fez, acho, há, será, permitirá, apostou. Peça que observem e escrevam no caderno se os verbos sublinhados indicam a manutenção de tempos constantes no título ou se acrescentam novos tempos verbais. 

Durante a realização da atividade, circule pela classe e observe as discussões que realizam. Pare nos grupos com dificuldade e os auxilie. 

Quando terminarem, releia o texto em voz alta e faça a correção da tarefa. Pare no primeiro parágrafo e mostre aos alunos as mudanças operadas: a afirmação do pesquisador mudou do tempo presente para o passado. Isso se explica, pois essa ação ocorreu no passado. O leitor faz a leitura do jornal no presente, tempo diferente daquele em que a afirmação do pesquisador se deu. 

No segundo parágrafo, indique os três tempos verbais - o passado, o presente e o futuro. O parágrafo inicia-se com o tempo passado para remeter à afirmação do pesquisador; há a inserção do discurso direto construído com uso do tempo presente, há o verbo no passado - afirmou - e, finalmente, o futuro indicando uma das dificuldades do contato entre os humanos e os ETs.

No último parágrafo, observe o uso do futuro do presente - permitirá - e a ação pontual do pretérito perfeito - apostou. Caso os alunos já conheçam os tempos do pretérito e do presente, temas das aulas anteriores, reforce que o futuro remete a um tempo por vir e que o futuro do presente indica uma ação certa, em relação à qual não se coloca dúvida. Você pode realizar um quadro na lousa em que os verbos se dividam em passado, futuro e presente. 

Terminada essa construção, volte ao texto e peça aos alunos que reflitam se a expressão pode encontrar no trecho "A humanidade pode encontrar uma forma de inteligência extraterrestre dentro dos próximos 25 anos" e se o verbo facilitaria, presente no último parágrafo, sugerem ideia de futuro e se possuem o mesmo valor semântico do verbo virá no título. Eles devem escrever a reflexão realizada no caderno. 

Termine a aula com a correção da atividade. A expressão, no trecho, sugere uma ação futura, mas essa ação não possui a força do virá do título; para que isso ocorra, ela deveria ser substituída pelo verbo "encontrará". Do mesmo modo, o verbo facilitaria indica uma ação sobre a qual não incide o mesmo teor de certeza de virá. Diga a eles que esse verbo pertence a outra forma de futuro, o futuro do pretérito. Finalize a reflexão assinalando o recurso persuasivo utilizado na construção do título e da notícia. No título, o uso do presente do indicativo dá força à afirmação do pesquisador ao trazê-la para o momento da leitura e o verbo virá coloca como certo o contato com ETs. No primeiro parágrafo, a força da manchete é desconstruída com o uso da expressão pode encontrar: esta lança dúvida sobre o contato: ele passa de certeza a uma possibilidade. 
Mencione que a notícia está na página de Ciências. Isso pode auxiliar na compreensão do uso do futuro - as pesquisas indicam probabilidades, muitas vezes tomadas como certezas - e da expressãopode ser, pois as pesquisas deixam um quê de incerteza no ar. 

Avaliação 
Reserve uma aula para a atividade avaliativa sobre o conteúdo. A atividade deve ser realizada individualmente. Entregue aos alunos o texto abaixo:

Carne do futuro pode ser artificial, diz cientista
VAGUINALDO MARINHEIRO ;DE LONDRES 

Se você gosta de carne, corra para uma churrascaria, porque renomados cientistas acreditam que em 40 anos não haverá suculentos bifes para todo mundo. Muitos terão de comer carne produzida em laboratório. 
A advertência faz parte de uma série de 21 artigos científicos encomendados pelo governo britânico para projetar a situação alimentar do mundo em 2050. As conclusões: a população será de 9 bilhões de pessoas, e o consumo per capita de alimentos também crescerá, principalmente nos países em desenvolvimento. 
Por isso, será necessário aumentar muito a produção de alimentos. Haverá competição por terra e por água, e o preço da comida vai subir. Nos últimos anos, a tecnologia ajudou. Técnicas de plantio, melhora nas sementes e controle de pragas aumentaram a produtividade. 
Na pecuária, estudos genéticos, inseminações artificiais e redução de doenças fizeram os animais terem mais peso (30% a mais no caso das vacas desde 1960) e darem mais leite (30% a mais por vaca no mesmo período). 
Chegará um momento, porém, em que preconceitos deverão ser deixados de lado. Aí entra a carne artificial, ou produzida em laboratório. 
"A carne in vitro já se provou factível e pode ser produzida de uma forma mais saudável e higiênica que na pecuária atual", disse Philip Thornton, do Instituto Internacional de Pesquisas em Pecuária de Nairóbi, no Quênia. 
Estudos sobre carne in vitro começaram há cerca de dez anos. Trata-se de retirar células de um animal vivo e fazer com que se reproduzam até virar tecido muscular. Em janeiro, europeus criaram carne de porco assim. 
Curioso é que a discussão surja agora, quando o Reino Unido investiga se a carne de filhos de uma vaca clonada foi ao mercado sem aviso a autoridades e consumidores. 
Para os cientistas, a necessidade poderá obrigar a população que hoje teme animais clonados a aceitar a carne produzida em laboratório. 
Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/784128-carne-do-futuro-pode-ser-artificial-diz-cientista.shtml. Acesso em 18 de ago. 2010.

Proponha as seguintes atividades. 

1. A expressão pode ser presente no título está de acordo com as afirmações do texto a respeito da alimentação global em 2050? Justifique. 
2. Reescreva o título da notícia de modo que ele indique certeza. 
3. Realize o resumo da notícia, utilizando pelo menos três verbos no futuro do presente. O início do resumo deve ser o seguinte: Estudo britânico afirma que a população do planeta em 2050 será de 9 milhões de pessoas.


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professores apaixonados

Professores e professoras apaixonadas acordam cedo e dormem tarde, movidos pela idéia fixa de que podem mover o mundo.
Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas, debilitam as inteligências.
As professoras apaixonadas descobriram que há homens no magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar, que é a arte de dar contexto a todos os textos.
Não há pretextos que justifiquem, para os professores apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de romantismo barato.
Apaixonar-se sai caro! Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio comodista, dão carona para os alunos que moram mais longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria.
Se estão apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver sem paixão, ensinar sem paixão.
Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado, sonhando acordado com a aposentadoria, contando nos dedos os dias que faltam para as suas férias, catando no calendário os próximos feriados.
Os professores apaixonados muito bem sabem das dificuldades, do desrespeito, das injustiças, até mesmo dos horrores que há na profissão. Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e seu protesto é continuar amando apaixonadamente.
Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se dilui no café ralo, não foge pelo ralo, não se apaga como um traço de giz no quadro.
Ter fé impede que o medo esmague o amor, que as alienações antigas e novas substituam a lúcida esperança.
Dar aula não é contar piada, mas quem dá aula sem humor não está com nada, ensinar é uma forma de oração.
Não essa oração chacoalhar de palavras sem sentido, com voz melosa ou ríspida. Mera oração subordinada, e mais nada.
Os professores apaixonados querem tudo. Querem multiplicar o tempo, somar esforços, dividir os problemas para solucioná-los. Querem analisar a química da realidade. Querem traçar o mapa de inusitados tesouros.
Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de uma explicação, percebem o sorriso do aluno que entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar.
A paixão é inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.
* Gabriel Perissé é Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP e doutor em Filosofia da Educação e doutorando em Pedagogia pela USP; é autor dos livros "Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência); "O leitor criativo" (Omega Editora); "Palavra e origens" (Editora Mandruvá); "O professor do futuro (Thex Editora). É Fundador da ONG Projeto Literário Mosaico ; É editor da Revista Internacional Videtur -Letras (www.hottopos.com/vdletras3/index.htm); é professor universitário, coordenador-geral da ong literária Projeto Literário Mosaico: www.escoladeescritores.org.br)