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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Ensino-aprendizagem



Fabio Venturini
Share on facebooShare on printMore Sharing ServicesO professor entra em sala e encontra seus alunos prontos. Controla a presença e as tarefas. Então, após alguns minutos, conduz os trabalhos acadêmicos. Ao toque de um sinal, retira-se para outra turma e repete o ciclo. Na maioria das escolas brasileiras, especialmente nas públicas, não é bem assim que funciona uma aula, pois muito tempo se perde com questões alheias à aprendizagem. Pelo menos é o que diz o relatório Achieving World Class Education in Brazil – The Next Agenda (“Atingindo uma educação de nível mundial no Brasil: próximos passos”), publicado pelo Banco Mundial. Segundo o documento, em alguns locais do País, a “perda” fica na casa dos 30%. Ou seja, numa aula de 45 minutos, mais de 15 são destinados ao controle de indisciplina e/ou ocorrem sem o professor em sala (especialmente por chegar atrasado e/ou dispensar a turma mais cedo) e/ou com “tarefas burocráticas”, o que envolve, além da chamada, o recolhimento de lição de casa, a limpeza da sala, a organização de carteiras e a distribuição de material.
Para a professora Guiomar Namo de Mello, consultora educacional e diretora da Escola Brasileira de Professores (Ebrap), o estudo do Banco Mundial revela o que a observação cotidiana já sugere: se forem realizadas comparações com sistemas de ensino eficientes de outros países, o trabalho efetivo gasto em aprendizagem nas escolas brasileiras é pequeno. “Não é da nossa cultura, somos displicentes nesse aspecto. Mas na educação escolar o tempo conta demais. Transições, movimentos e chamada tomam muito tempo, usurpam horas do aluno, o que afeta o desempenho final, pois a educação se dá no cotidiano, com um calendário de 200 dias letivos”, avalia Guiomar, que foi secretária de educação do município de São Paulo, na década de 1980.
O relatório foi elaborado com dados obtidos em observações feitas em escolas da rede pública no município do Rio de Janeiro e dos Estados de Minas Gerais e Pernambuco. Os resultados foram comparados com as “melhores práticas” de países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade internacional formada por nações com econo­mias consideradas sólidas, fundamentadas no sistema capitalista de produção, na democracia por representação eleitoral e no livre mercado.

Realidade brasileira
As turmas do professor Nilson de Souza Junior, que dá aulas de História para o fundamental II e médio na Escola Estadual Florestan Fernandes, no bairro de Perus, periferia de São Paulo, e na Escola Municipal de Ensino Fundamental Estação Jaraguá, no bairro homônimo, na Zona Oeste da capital paulista, têm entre 35 e 40 alunos. Com esses estudantes, o tempo gasto na acomodação da turma realmente é grande, mas, segundo o docente, não é necessariamente indisciplina. “Nessas escolas os alunos são normalmente agitados. Quando é a primeira aula do período da noite, por exemplo, eles conversam muito sobre os assuntos que acham importantes, atualizam-se sobre o que aconteceu durante o dia, no final de semana. Depois voltam a fazer tudo isso na transição entre as aulas”, avalia Souza Junior.
Contudo, segundo o docente, quando há alguma motivação acadêmica extra, é mais rápido para conseguir o envolvimento no trabalho. “Em dias de apresentação de projetos especiais ou de avaliação, a tensão faz a turma reduzir a agitação”, conta.
As análises mostram uma diferença grande entre o que se chama de indisciplina no relatório do Banco Mundial e no dia a dia de escolas públicas para população mais pobre. O levantamento cita a indisciplina quando se refere a conversas paralelas e desrespeito à autoridade intelectual e acadêmica do professor. Na Escola Estadual Florestan Fernandes, por exemplo, é quando envolve agressão verbal, física e desrespeito deliberado a espaços e horários de aula, muitas vezes envolvendo ocorrências policiais.
O vice-diretor da escola, o professor Adelgício Ribeiro de Paula, assim como o professor Souza Junior, descreve atos de indisciplina ligados a agressões, invasão de espaços e afrontas à instituição de ensino; portanto, situações relacionadas não apenas ao docente. Segundo o gestor, boa parte dos alunos, em especial do nível médio regular ou do ensino de jovens e adultos (EJA), desconsidera os professores prepostos do Estado. “Como não têm acesso ao Palácio dos Bandeirantes [sede do governo paulista], buscam afrontar professores e funcionários verbalmente, por vezes fisicamente. Muitos ficam no corredor ou entram em outras salas de outras turmas e, como alguns têm fama de perigosos no bairro, o professor fica impotente”, relata.
De acordo com o vice-diretor, esses comportamentos geram perdas na transição. A troca de professores leva aproximadamente cinco minutos. Outros cinco a dez são usados para colocar os alunos de volta para dentro da sala. Depois que a turma está acomodada começam as tarefas burocráticas que consumirão pelo menos mais dez minutos. Em muitos casos, a aula propriamente dita dura 20 minutos. “Uma das ações que temos feito é a direção presente no corredor, realizando trabalho de inspetoria”, conta.

Função social da escola
Já para turmas mais jovens, a indisciplina gera perdas por conta das diferenças de concepção sobre o papel da escola na sociedade. Embora o relatório do Banco Mundial avalie a educação como um meio de formação de força de trabalho qualificada (um dos motivos pelos quais os países emergentes candidatos à filiação à OCDE, como o Brasil, sejam sempre avaliados e classificados de acordo com melhores e piores práticas), alunos das escolas públicas e seus pais têm uma visão bastante diferente, num notório choque cultural que gera impasses que consomem trabalho efetivo não apenas na aula, mas também de planejamento e coordenação pedagógica.
O professor Adelgício Ribeiro de Paula relata que, no período vespertino, com alunos do fundamental I, é necessário que ele cumpra jornadas mais longas de trabalho por conta de problemas com brigas entre os alunos e atendimento aos pais. “Normalmente são filhos de pais que trabalham e não têm com quem deixá-los em segurança e com alimentação garantida. E quando duas crianças brigam os pais de ambos julgam que a escola errou, pois não cumpriu seu papel de educadora social”, conta.
Entretanto, ele ainda acredita no caminho de engajar os alunos. Apesar de o desempenho acadêmico ser fraco, em geral, um dos pontos que pesam é a falta de aspirações do aluno por não enxergar na escola uma forma real e possível de melhoria de vida. Para tentar mudar essa visão na Escola Florestan Fernandes, o gestor ajudou os alunos a montarem um grêmio, com o objetivo de “trazê-los para a escola”, ou seja, de se construir nos educandos uma identidade de pertencimento ao ambiente escolar. “Há ainda muita resistência, mas já foram realizadas ações de organização da biblioteca, por exemplo. É interessante que o aluno converse com o professor em intervalos, conheça melhor os funcionários, saiba que estamos todos no mesmo barco, que, apesar das grades, a escola não é presídio. O processo de construção da cultura escolar é demorado e constante.”

Professor fora de sala
Faltas e atrasos de professores são motivos de muita perda de tempo efetivo de trabalho acadêmico. Para o Banco Mundial, em parâmetros classificatórios por mérito e capacidades, a docência no Brasil é uma profissão de baixo statussocial e que não atrai os estudantes de melhor desempenho, sendo que a maioria dos alunos de ensino médio que deseja se dedicar à carreira docente está entre os 30% de pior domínio em língua portuguesa e matemática.
As ações propostas pelo Banco Mundial para elevar o ensino brasileiro em “classe mundial” envolvem reforma do sistema de formação, dos critérios de seleção e padrões de contratação (neste caso, de concursos e titulação para um sistema baseado em dois anos de experiência com supervisão rigorosa para permanecer no ensino). Outro aspecto é a implantação de programas de treinamento e aperfeiçoamento de docentes voltados, entre outros aspectos, para a substituição de métodos tradicionais de ensino com uso de recursos básicos (majoritariamente quadro negro, livros, textos e sem uso de computadores) para o uso de tecnologias de informação e comunicação, além do desenvolvimento de técnicas para engajar os alunos e eliminar o desperdício de tempo de aula em tarefas que não são de aprendizagem.
De acordo com o vice-diretor, além das condições de carreira e trabalho, um sentimento de descompromisso também gera perdas graves de tempo. “Boa parte dos professores tem outras atividades em empresas ou negócios próprios. Mesmo os efetivos veem na docência uma renda complementar. Os que têm estabilidade não se preocupam tanto em cumprir a jornada”, relata.
Os educadores que têm a docência como única fonte de renda, segundo o gestor, trabalham em muitas escolas. Como a mobilidade em São Paulo é extremamente problemática, quando não faltam, chegam atrasados. “Tenho uma média de três faltas por noite. E quando isso acontece, nem colegas nem alunos reprovam. As faltas são bem-vindas pelos que compareceram, pois as aulas são adiantadas. Tanto alunos quanto professores ficam satisfeitos por sair mais cedo”, revela.
O relatório do Banco Mundial cita, em bom “economês”, que o acúmulo de capital humano, medido pela média de tempo de ensino escolar da força de trabalho, “tem sido constantemente apontado como um problema crítico” para o desenvolvimento do País e, “a não ser que o sistema educacional faça um trabalho melhor no preparo da força de trabalho para o século 21, o Brasil perderá terreno na competição econômica global para países como a China”.
A produção dessa força de trabalho passa pelo bom desempenho do professor, melhorando carreira, condições de trabalho e remuneração. Para o vice-diretor da Escola Florestan Fernandes, o dinheiro é importante, mas as ações não podem ser reduzidas a esse aspecto. “Claro que qualquer remuneração extra ou maior é bem-vinda, mas esse mecanismo, que hoje é muito usado nos programas de meritocracia, não está funcionando. O professor precisa ter vontade de se comprometer pelo trabalho em si. Uma alternativa seria vinculá-lo a uma escola em regime de dedicação exclusiva para ter tempo de estudo, pesquisa, produção intelectual, publicação, planejamento etc. Pagar como linha de produção não está funcionando”, avalia.

Cultura e organização escolar
Em que pesem as diferentes avaliações pelo motivo das perdas de tempo e as formas de lidar com o tema, aparentemente há consenso de que o uso eficiente do tempo em sala de aula é essencial.
Uma das sugestões defendidas pela professora Guiomar Namo de Mello refere-se a alterações de currículo, que considera pequeno e “enciclopédico”. Para ela, a escola deveria ensinar de tudo para todos, ampliar a diversidade e a quantidade de atividades, com o aluno mais tempo dentro da escola. A proposta seria, então, desenvolver atividades relacionadas aos conteúdos já trabalhados para usar em situações diversas os conhecimentos advindos das aulas de Língua Portuguesa, História e Matemática, por exemplo.
O aspecto cultural é algo que ainda se está aprendendo a lidar. “Temos uma escola que há pouco tempo incorporou todas as crianças, de diferentes origens e costumes. No geral, os professores ainda não estão completamente aptos a lidar com essa diversidade, com o conhecimento prévio tão diverso que as crianças trazem de casa”, afirma.
O professor Nilson de Souza Junior, por exemplo, tem turmas tão homogêneas que diz ser necessário verificar, em todos os inícios de aula, os ânimos dos estudantes, quais alunos estão em sala e como estão, se há alguém novo, etc. Para ele, esses aspectos subjetivos de interferência direta no desempenho acadêmico não são mensuráveis em tempo de aula perdido ou ganho. “Não dá para fazer funcionar desde o começo como se fosse uma máquina. Não tem muito com o que fazer por conta da organização institucional e do sistema escolar. É a estrutura que se oferece para o professor”, avalia.
Mudanças de organização demoram anos. Por isso, a consultora dá algumas dicas para quem já sente hoje os efeitos dessas dificuldades diretamente. Segundo Guiomar, o tempo disponível, a despeito de todas as dificuldades, pode ser usado com mais inteligência. O professor e a direção podem elaborar métodos para encurtar as transições (como trocas de professores e deslocamentos entre atividades – da sala para laboratórios, quadras, pátios e biblioteca, por exemplo) e para otimizar tarefas como a distribuição de material em sala. “O docente pode caprichar nos detalhes de um bom planejamento do conteúdo, controle do espaço e chegar à sala de aula antes dos alunos. Eles perceberão que o professor pensou em tudo e isso também ajudará no engajamento”, sugere.
Matéria publicada na edição de outubro de 2011 da revista Profissão Mestre.

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professores apaixonados

Professores e professoras apaixonadas acordam cedo e dormem tarde, movidos pela idéia fixa de que podem mover o mundo.
Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas, debilitam as inteligências.
As professoras apaixonadas descobriram que há homens no magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar, que é a arte de dar contexto a todos os textos.
Não há pretextos que justifiquem, para os professores apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de romantismo barato.
Apaixonar-se sai caro! Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio comodista, dão carona para os alunos que moram mais longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria.
Se estão apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver sem paixão, ensinar sem paixão.
Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado, sonhando acordado com a aposentadoria, contando nos dedos os dias que faltam para as suas férias, catando no calendário os próximos feriados.
Os professores apaixonados muito bem sabem das dificuldades, do desrespeito, das injustiças, até mesmo dos horrores que há na profissão. Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e seu protesto é continuar amando apaixonadamente.
Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se dilui no café ralo, não foge pelo ralo, não se apaga como um traço de giz no quadro.
Ter fé impede que o medo esmague o amor, que as alienações antigas e novas substituam a lúcida esperança.
Dar aula não é contar piada, mas quem dá aula sem humor não está com nada, ensinar é uma forma de oração.
Não essa oração chacoalhar de palavras sem sentido, com voz melosa ou ríspida. Mera oração subordinada, e mais nada.
Os professores apaixonados querem tudo. Querem multiplicar o tempo, somar esforços, dividir os problemas para solucioná-los. Querem analisar a química da realidade. Querem traçar o mapa de inusitados tesouros.
Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de uma explicação, percebem o sorriso do aluno que entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar.
A paixão é inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.
* Gabriel Perissé é Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH-USP e doutor em Filosofia da Educação e doutorando em Pedagogia pela USP; é autor dos livros "Ler, pensar e escrever" (Ed. Arte e Ciência); "O leitor criativo" (Omega Editora); "Palavra e origens" (Editora Mandruvá); "O professor do futuro (Thex Editora). É Fundador da ONG Projeto Literário Mosaico ; É editor da Revista Internacional Videtur -Letras (www.hottopos.com/vdletras3/index.htm); é professor universitário, coordenador-geral da ong literária Projeto Literário Mosaico: www.escoladeescritores.org.br)